O segredo sueco para criar uma sociedade investidora fora das escolas

 

Plano de incentivos criado ou longo de décadas ajudou a colocar a Suécia no ranking das sociedades que mais investem em ações, com 40% dos ativos das famílias investidos no mercado

A Suécia é um dos países do mundo onde a população mais investe em ações. Num país com cerca de 10,7 milhões de habitantes, 3,8 milhões, cerca de 40% da população, têm uma conta de poupança e investimento. Com um dos mercados acionistas mais vibrantes na Europa, as famílias suecas, apesar de não aprenderem a investir nas escolas, olham para o investimento em ações como algo natural e 2,5% dos descontos para o sistema de pensões público no país é investido obrigatoriamente no mercado. Mas como se cria uma cultura de investimento? Foram precisas décadas de reformas profundas, que incluíram o lançamento de planos de incentivos para particulares e empresas. E até os bancos ajudam.

Sem educação financeira formal nas escolas, a Suécia iniciou no início da década de 70 uma mudança regulatória e fiscal transformadora, que acolheu o apoio e o compromisso dos partidos com assento parlamentar no país, e mudou a forma de investir dos suecos. Hoje há cerca de três milhões de acionistas na Suécia — 84% são investidores individuais. “Foram 30-40 anos de evolução” para criar esta cultura de investimento, explicou o professor Pontus Braunerhjelm, especialista em financiamento da inovação e política de inovação, a um grupo restrito de jornalistas, na Stockholm Chamber of Commerce.

Para o especialista, é preciso ter “todas as peças do bloco no lugar para desenvolver esta inovação”, destacando desde logo a parte fiscal. “Em 1970 os impostos eram enormes”, antes de o país encetar uma série de reformas que permitiram “tornar o investimento em ações mais interessante”, com incentivos fiscais para as pessoas e para as empresas não cotadas dispersarem capital.

As primeiras alterações ocorreram no final da década de 1970, quando os investimentos em fundos passaram a ser parcialmente dedutíveis e os rendimentos dos primeiros anos foram isentos de impostos. Mais tarde, em 1984, surgiram as contas de poupança pública (allemanssparande) com o objetivo de democratizar o investimento.

Em 2012, nasce o Investeringssparkonto (ISK), a conta de poupança e investimento, um instrumento que se tornou num dos mais populares entre os investidores suecos, que isenta de tributação as primeiras 300 000 coroas de mais-valias. Além disso, têm uma tributação simplificada e uniforme, na qual os titulares das contas individuais não precisam de calcular ou apresentar qualquer documentação por conta própria.

Em Portugal, tanto a Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) como a Associação Portuguesa de Fundos de Investimento, Pensões e Património (APFIPP) têm defendido uma solução idêntica no mercado nacional, até agora sem sucesso.

Além da criação destas populares contas, entre 1994 e 2000, o país procedeu a uma profunda reforma do sistema de pensões, passando a prever que 2,5% do salário fosse investido em fundos escolhidos pelas pessoas. Na ausência de uma escolha, o fundo público AP7 é, por defeito, o instrumento que vai gerir esta percentagem do capital destinado ao mercado de capitais. Esta importante mudança “criou” seis milhões de investidores no país.

Apesar de a Suécia não ter um modelo formal de educação financeira nas escolas, as políticas públicas desenvolvidas ao longo destas décadas promoveram uma cultura de investimento e permitiram ganhar conhecimento, com o próprio sistema financeiro a incentivar o investimento, segundo explicam os responsáveis. Enquanto em Portugal o grosso das poupanças das famílias está em depósitos — são mais de 201 mil milhões deixados no banco –, na Suécia é “muito frequente” investir em ações.

Com 1500 biliões de coroas suecas sob gestão (137,5 mil milhões de euros) e seis milhões de investidores, o fundo sueco AP7 investe atualmente em 2000 empresas globais: 61% nos EUA; 14% na Europa; e 14% na Ásia.

Desde que foi criado, em 2000, o fundo garante um retorno anual de 11%. Apesar de todos os anos, os suecos poderem escolher ou mudar o fundo onde investem os 2,5% dos 18,5% do salário que descontam para a Segurança Social, a maioria não o faz, deixando a gestão deste capital com o fundo público.

Em termos de política de gestão, Mikael Lindh Hök, um dos gestores do fundo sueco AP7, explica que até aos 55 anos, 100% do capital é aplicado exclusivamente em ações. A partir dos 56 anos, a exposição ao mercado acionista vai sendo reduzida, passando a incluir também uma parte em obrigações.

À medida que a idade avança, a posição em dívida supera as ações, passando a componente obrigacionista a pesar 67% do total e as ações 33%. Um modelo que procura ajustar o risco e o retorno, de modo a rentabilizar as poupanças da população para a reforma.

Fonte: ECO, 18 de abril de 2026

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