Os jornalistas pagos por bancos
Se há
jornalistas pagos por estruturas paralelas de poder financeiro, já não estamos
perante jornalismo. Estamos perante tráfico de influências. Fabrico de opinião.
Engenharia política disfarçada de informação
Passaram dez anos sobre uma das promessas mais incómodas do
jornalismo português. Em abril de 2016, quando o país ainda digeria os
escombros do Banco Espírito Santo, o jornal Expresso noticiou que o
“saco azul” do Grupo Espírito Santo — a ES
Enterprises — teria pago avenças a políticos, gestores, empresários e
jornalistas. O Sindicato dos Jornalistas exigiu, e bem, que os nomes
fossem conhecidos — realmente não se lança uma suspeita desta gravidade sobre
uma profissão inteira para depois a deixar apodrecer em praça pública.
O Expresso respondeu que os nomes dos jornalistas
seriam revelados quando a investigação estivesse concluída. Dez anos depois,
onde estão?
Esta pergunta não é uma birra contra a imprensa livre. É uma
defesa da imprensa livre contra a sua captura. Uma
democracia precisa de jornalistas independentes, capazes de fiscalizar bancos,
governos, partidos e interesses instalados. Mas se há jornalistas pagos por
estruturas paralelas de poder financeiro, já não estamos perante jornalismo.
Estamos perante tráfico de influências. Fabrico de opinião. Engenharia política
disfarçada de informação.
E o contexto torna tudo mais grave.
O BES não foi um banco qualquer. Foi o colapso de um império
que durante décadas se confundiu com o regime, com as elites, com a política e
com os corredores onde se decide sem prestar contas. Quando caiu, em 2014,
deixou ruína, indignação e milhares de portugueses lesados — pessoas que
confiaram as poupanças de uma vida de trabalho, muitas vezes empurradas para
produtos apresentados como seguros e que acabaram abandonadas num labirinto de
resoluções, fundos e responsabilidades partidas.
Ainda hoje há lesados do BES. Ainda hoje há famílias que não
recuperaram o que perderam. Ainda hoje se discute quem pagou a fatura, quem
lucrou com a limpeza dos ativos, quem foi protegido e quem ficou para trás. O
colapso do BES foi uma radiografia brutal do poder em Portugal: mostrou como o
dinheiro circula, como a influência se compra e como os cidadãos comuns são
quase sempre os últimos da fila.
É por isso que a lista dos jornalistas alegadamente
avençados não é um pormenor dos Panama Papers. É uma peça central. Num
escândalo de poder financeiro, saber quem recebeu dinheiro para condicionar
narrativas públicas é essencial para perceber a dimensão real da captura.
O silêncio de dez anos não é neutralidade. É um facto
político.
Quando um jornal revela que há suspeitas sobre jornalistas
pagos por um saco azul e depois não identifica os nomes, cria duas injustiças:
protege, se existirem, os que traíram a profissão; e condena à suspeita todos
os outros, incluindo os jornalistas sérios que trabalham sem avenças
escondidas.
A democracia não vive apenas de eleições. Vive de confiança.
E a confiança exige transparência, memória e responsabilidade. Exige que as
promessas feitas em público não sejam enterradas pela conveniência, pela
cobardia ou pelo passar dos anos.
Dez anos depois, a pergunta mantém-se simples e devastadora:
quem eram os jornalistas alegadamente pagos pelo saco azul do BES/GES? Onde
estão hoje esses jornalistas? Em que redações? A dirigir que estações de
televisão ou que jornais?
Portugal não pode continuar a ser o país onde os pequenos
pagam, os lesados esperam, os poderosos prescrevem e certas denúncias nunca se
concretizam. Dez anos depois, o Expresso tem uma obrigação moral e democrática:
cumprir o que ficou por cumprir.
Joana Amaral Dias
Fonte: SAPO, 29 de abril de 2026
Se fossem só os bancos… Também deverá haver embaixadas a pagar, só assim se explica os disparates que dizem ou escrevem.

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