Punk na igreja: a aliança improvável na Alemanha de Leste
Banda Happy Straps na Samariterkirche, em 1985, Berlim Oriental
A
subcultura imortalizada pelos Sex Pistols atravessou clandestinamente a Cortina
de Ferro e realizou o seu primeiro festival, em 1983, numa igreja da antiga
Alemanha comunista. Os templos eram usados para contornar a censura do regime
Os cinco jovens, de cabelo bem penteado e roupas discretas,
não chamaram a atenção dos passageiros no comboio que fazia a travessia de
Berlim Ocidental para Berlim Oriental. Munidos de um visto de 24 horas
concedido pelas autoridades do lado socialista, aparentavam normalidade no
caminho até à Igreja Protestante do Redentor, na capital da República
Democrática Alemã, onde um cartaz à porta anunciava: “Evento religioso com
acompanhamento musical”.
No interior, os membros da banda Die Toten Hosen, oriundos
de Düsseldorf, na Alemanha Ocidental, eram aguardados por cerca de duas dezenas
de jovens que estavam sob vigilância da Stasi. Ainda assim, naquele momento, em
março de 1983, numa igreja luterana, isso pouco importava.
Vestidos com couro, jeans rasgados, correntes e cristas
moicanas, assistiam à primeira atuação de uma banda punk da Alemanha Ocidental
no lado oriental da Cortina de Ferro. Os Toten Hosen abandonaram o disfarce de
jovens comuns e pegaram nos instrumentos. Tal como o equipamento de som, as
guitarras, o baixo e a bateria foram fornecidos pelos Planlos, grupo local que
partilhou o concerto.
A banda de Düsseldorf, ainda hoje em atividade, tornar-se-ia
uma das principais referências do punk rock alemão e viria a atravessar
novamente a Cortina de Ferro noutras ocasiões, chegando mesmo a obter
autorização para atuar no lado socialista em 1989. Já os Planlos sucumbiriam
poucos anos depois à pressão do ministério da Segurança do Estado da Alemanha
Oriental, que espiava, interrogava e impedia grupos como o seu de atuar em
espaços oficiais da capital da RDA. Não era, porém, esse o caso das igrejas.
Toleradas pelo governo socialista — apesar da máxima de
“ópio do povo” associada à linha marxista-leninista do Partido —, as igrejas
constituíam alguns dos raros espaços onde era possível realizar concertos,
desde que enquadrados em contexto religioso e, por vezes, até após as
celebrações. Assim, escapavam ao controlo direto da burocracia do regime.
Tornaram-se, por isso, locais de encontro para dissidentes e críticos, também
porque não podiam ser invadidas por agentes da Stasi ou da Volkspolizei, a força
policial uniformizada.
Por seu lado, os punks eram considerados pelo regime uma
“degeneração capitalista”, expressão do “imperialismo cultural do Ocidente” e
inimigos ideológicos. Não tinham autorização para atuar em discotecas, salas de
espetáculos, praças ou escolas e eram frequentemente alvo de interrogatórios,
apreensões, buscas e vigilância por parte da Stasi — uma realidade que, em
certos aspetos, não diferia muito do que ocorria do outro lado da Cortina de
Ferro.
A improvável aliança entre religião e o movimento punk — difícil de imaginar noutros contextos — tornou-se, assim, relativamente comum na Alemanha de Leste nos últimos anos do Muro de Berlim.
Os Toten Hosen, de Düsseldorf, em foto de 1985. A banda foi a primeira da Alemanha Ocidental a tocar do outro lado do Muro
Sob a vigilância da Stasi
No início da década de 1980, o movimento impulsionado pelos
Sex Pistols e pelos Ramones já se tinha espalhado pela Europa, após ter
emergido, na década anterior, nos subúrbios industriais britânicos e nos
Estados Unidos. O desemprego, a falta de perspetivas e a revolta contra as
políticas neoliberais da primeira-ministra Margaret Thatcher alimentavam a
expressão estética e comportamental de uma juventude “sem futuro”.
O punk percorreu o continente e entrou na Alemanha pelo lado
capitalista. Atravessou o Muro de Berlim através de discos e revistas
contrabandeados, bem como por via de emissões radiofónicas ocidentais
proibidas, captadas clandestinamente. Em pouco tempo, este novo estilo de vida
reunia já algumas dezenas de adeptos no lado socialista da Alemanha dividida.
Nesse contexto, porém, o foco
foi necessariamente adaptado. Em vez da ausência de futuro associada ao
capitalismo, a insatisfação passou a expressar-se através do lema “Too Much
Future” (“futuro em excesso”), uma alusão à rigidez do sistema, que
condicionava a individualidade a um percurso pré-definido desde o nascimento —
trabalho, educação, serviço militar e lealdade incondicional ao Partido
Socialista Unificado da Alemanha.
“Percebemos que os punks da Alemanha Oriental corriam riscos
muito maiores e viviam em condições muito mais difíceis do que nós”, recordou
Campino, vocalista dos Die Toten Hosen, numa entrevista concedida em 2022 ao
site t-online. O concerto histórico em Berlim Oriental foi também
retratado no documentário Auswärtsspiel (2022), exibido na televisão alemã.
A estética agressiva do punk contrariava frontalmente os
valores promovidos pelo regime da República Democrática Alemã. Os jovens eram
incentivados a usar o uniforme azul da Freie Deutsche Jugend (FDJ), braço
juvenil do partido no poder, e a manter uma conduta disciplinada. A liderança
do ministério da Segurança do Estado, que supervisionava a Stasi, já tinha
reprimido fortemente movimentos anteriores, como o hippie e o rock’n’roll,
chegando a proibir bandas como os The Beatles e os The Rolling Stones no país.
Apesar disso, o movimento expandia-se para além de Berlim
Oriental. Em 1983, o mesmo ano do concerto dos Toten Hosen, a cidade de Halle
acolheu o primeiro festival punk da RDA, realizado na Christuskirche com o
apoio do pastor local, Siegfried “Siggi” Neher, que viria a ser conhecido como
“pastor punk” por disponibilizar a igreja para festivais e concertos, apesar da
repressão da Stasi.
A “agitação” provocada pelo carácter anárquico do movimento levou o chefe da Stasi, Erich Mielke, a ordenar, em 1983, uma ofensiva contra os punks. Foi nesse momento que a perseguição ao movimento na Alemanha de Leste atingiu o seu ponto mais intenso.
Ocupação em edifício de Berlim Oriental, em 1982
Faça você mesmo
Existindo à margem do sistema de poder do Partido Socialista
Unificado da Alemanha, a Igreja evangélica procurava sobreviver adotando uma
postura de coexistência crítica, sintetizada na fórmula “igreja no socialismo,
não contra o socialismo”. Na prática, isso significava abrir espaço a debates
sobre paz, direitos humanos, serviço militar, ambiente e liberdade individual —
temas impossíveis de discutir noutros espaços da esfera pública oficial.
Para os músicos amadores — ou diletantes —, tratava-se de um
dos últimos refúgios. A obtenção de autorização para concertos dependia de
avaliação por uma comissão de especialistas nomeados pelo Partido, que
ponderavam não só a qualidade técnica, mas também a conformidade das
composições com as diretrizes ideológicas do regime. Para os jovens adeptos do
espírito “faça você mesmo”, as hipóteses de aprovação eram reduzidas ou
praticamente inexistentes.
Também a edição de discos era quase impossível. O Estado
controlava as duas editoras oficiais da República Democrática Alemã: a AMIGA,
com monopólio da música popular, e a ETERNA, dedicada à música erudita e
sinfónica. Restava, assim, a via artesanal. Gravadores de cassetes já existiam
e eram frequentemente introduzidos clandestinamente a partir do outro lado do
Muro de Berlim — para onde regressavam, também de forma clandestina, com
gravações destinadas a circular entre contactos na Alemanha Ocidental.
Apesar das dificuldades, não foram poucas as bandas que
resistiram no Leste até à queda do Muro, em 1989. Segundo
dados da Stasi, existiriam cerca de 900 punks na RDA por volta de 1985.
A coletânea Too Much Future (2020), por exemplo, reúne 48 temas de 38
bandas do punk rock da Alemanha de Leste, produzidos entre 1980 e 1989.
“Esta subcultura, também marginalizada no Ocidente, exercia
um grande fascínio sobre os jovens da RDA. Inicialmente, foram atraídos pelo
punk inconformista, que gerava polémica e lhes permitia distanciar-se do
sistema”, explicou Ulrike Rothe, curadora da exposição Punk in der Kirche (Punk
na Igreja), apresentada no Humboldt Forum.
A partir de 1985, contudo, o estilo já tinha sido
parcialmente assimilado pelo público jovem. As autoridades aliviaram a pressão
sobre o movimento, e o punk chegou mesmo à rádio estatal pela mão do disc
jockey Lutz Schramm. A própria Freie Deutsche Jugend (FDJ) procurou
integrar o fenómeno, o que gerou rejeição entre os pioneiros da subcultura, que
viam nessa apropriação uma tentativa de o enquadrar nas diretrizes do Partido.
Em 1988, até a AMIGA cedeu, editando o LP Die anderen Bands, uma
compilação com quatro grupos.
Mas o tempo escasseava. Um ano depois, o Muro de Berlim
cairia — e com ele desapareceria, para sempre, o contexto que moldou a Alemanha
de Leste e o seu movimento punk.
Fonte: DW, 26 de abril de 2026



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