Ucrânia sugeriu chamar “Donnyland” a território no Donbass para captar interesse de Trump
Fontes
com conhecimento sobre as negociações entre Kiev e Washington ouvidas pelo New
York Times dizem que a área em causa, na província de Donetsk, poderia
servir como zona desmilitarizada
Ainda antes de ter regressado à Casa Branca, no início do
ano passado, Donald Trump prometia acabar com a guerra na Ucrânia em apenas 24
horas. A complexidade do conflito e a incapacidade dos Estados Unidos em
convencer o Kremlin a parar os ataques ou a abrir mão do território que a
Rússia anexou no Leste do seu vizinho fizeram com que a promessa irrealista do presidente
norte-americano tenha ficado por cumprir. Mais: levaram-no a perder o interesse
no assunto.
Conscientes da personalidade
singular de Trump e numa
tentativa de o convencer a voltar a olhar para os méritos da posição de Kiev
sobre a guerra, os responsáveis ucranianos envolvidos nas negociações de paz
com os EUA sugeriram chamar “Donnyland” a um território do oblast de Donetsk,
no Donbass, que poderia servir como zona desmilitarizada ou zona de livre
comércio, num cenário pós-conflito.
Inicialmente proposta por um negociador ucraniano em jeito
de brincadeira, a designação em causa, que remete para o primeiro nome do presidente
dos EUA (Donald), tem sido usada várias vezes nas conversas com responsáveis
norte-americanos, disseram ao New York Times quatro fontes com
conhecimento sobre as negociações, sob condição de anonimato.
“O facto de um nome que evoca a Disneylândia ter sido
atribuído a uma zona deserta e devastada da região de carvão e de aço da
Ucrânia pode parecer chocante, numa altura em estão a ser travados os combates
mais mortíferos na Europa desde a Segunda Guerra Mundial, mas é um reflexo de
uma realidade global em que os governos apelam à vaidade de Trump para
conseguirem o apoio do poderio americano”, escrevem os jornalistas Anton
Troianovski e Andrew E. Kramer, que assinam a notícia do diário nova-iorquino.
Não são, ainda assim, conhecidos muitos pormenores sobre a
proposta para a “Donnyland”, que envolve uma área com cerca de 5,2 quilómetros
quadrados, próxima da linha da frente, e que, de acordo com as autoridades
ucranianas, tem perto de 190 mil habitantes.
Citando fontes, o New York Times diz que uma das
hipóteses em cima da mesa passaria pela participação do Conselho da Paz – a
organização internacional, liderada por Trump, que pretende concorrer com a
ONU, mas à qual nem a Ucrânia nem a Rússia aderiram – na administração dessa
zona desmilitarizada.
Impasse
Particularmente desde que o presidente dos Estados Unidos
recebeu Vladimir Putin, seu homólogo russo, no Alasca, no Verão do ano passado,
que a Administração Trump tem mostrado abertura e apoio a um cenário em que a
Ucrânia cede território soberano à Rússia, em troca pelo fim das hostilidades.
Descrevendo essa possibilidade como uma “capitulação” em
toda a linha e uma cedência às reivindicações do Kremlin, Volodymyr Zelensky, presidente
da Ucrânia, e os seus aliados europeus recusam a ideia de que se deva premiar a
Rússia pela invasão e legitimar internacionalmente a tomada de território pela
força.
Para além disso, as Forças Armadas russas nem sequer
controlam militarmente a totalidade dos cerca de 20% do território ucraniano
que reivindicam para si, havendo partes do Donbass em que o Exército da Ucrânia
tem “as sua melhores fortalezas defensivas”, segundo Zelensky. “Se retirarmos
os nossos soldados, os russos terão total liberdade de ação em direção ao
centro do país”, alertava o chefe de Estado ucraniano no mês passado, citado
pelo Kyiv Independent.
A abertura para considerar o estabelecimento de uma zona
desmilitarizada no Donbass foi, ainda assim, admitida por Kiev, no final do ano
passado, quando Zelensky apresentou um plano de paz assente em 20 pontos,
elaborado em conjunto com os EUA.
O governo ucraniano propôs, no entanto, que esse território
fosse administrado por uma autoridade neutral, que incluiria representantes
russos e ucranianos, e a garantia de que a Rússia não reivindicaria, no futuro,
a sua soberania sobre o mesmo. O Kremlin respondeu dizendo que só aceitaria uma
zona desmilitarizada se esta pudesse ser patrulhada por polícias e soldados
russos, exigência considerada inaceitável pela Ucrânia.
Depois de a invasão em grande escala da Ucrânia pela Rússia
ter entrado no seu quinto ano em fevereiro, a sensação de impasse no processo
negocial tripartido (Ucrânia, Rússia e EUA) ou bilateral (Ucrânia e EUA)
intensificou-se particularmente nas últimas semanas, já que os principais
negociadores norte-americanos, como Steve Witkoff, enviado especial de Trump,
ou Jared Kushner, genro do presidente, têm estado focados na resolução da
guerra dos EUA e de Israel contra o Irão.
Fonte: Público, 22 de abril de 2026
“Donnyland”: Ucrânia propõe renomear parte de região em
disputa com a Rússia em homenagem a Trump
A proposta reflete uma realidade global em que governos
apelam à vaidade do presidente norte-americano para obter o poderio militar de
Washington a seu favor.
Quando a Polónia procurava uma base militar dos EUA em 2018,
apresentou a ideia como “Fort Trump”. Quando a Arménia e o Azerbaijão assinaram
um compromisso de paz na Casa Branca no ano passado, designaram a via de
transporte criada como “Trump Route for International Peace and Prosperity”
(Rota Trump para a Paz e Prosperidade Internacional, numa tradução livre).
Mas o exemplo mais improvável do nome do presidente
norte-americano, Donald Trump, associado a um ponto crítico geopolítico poderá
ser um que até agora permaneceu fora do escrutínio público. Nas negociações de
paz na Ucrânia nos últimos meses, autoridades ucranianas sugeriram que a parte
da região do Donbass que a Rússia ainda tenta conquistar poderia passar a
chamar-se “Donnyland”.
O apelido, uma referência a “Donbass” e “Donald”, foi
descrito por quatro pessoas familiarizadas com as negociações, que falaram sob
condição de anonimato devido ao carácter confidencial das mesmas.
Quando um negociador ucraniano mencionou o termo pela
primeira vez, em parte em tom de brincadeira, fê-lo como parte de uma tentativa
de convencer a administração Trump a adotar uma posição mais firme contra as
exigências territoriais da Rússia, segundo três pessoas com conhecimento das
conversações.
O presidente russo, Vladimir Putin, prometeu continuar a
lutar até que as suas forças alcancem um limite administrativo importante na
fronteira do Donbass, a região industrial no leste da Ucrânia onde o Kremlin
iniciou a guerra em 2014.
O facto de um nome que evoca a Disneylândia ter sido
associado a uma faixa despovoada e devastada do território ucraniano pode
parecer chocante, numa altura em que continuam os combates mais mortíferos na
Europa desde a Segunda Guerra Mundial. Mas também reflete uma realidade global
em que governos recorrem à vaidade de Trump para garantir o apoio do poder
norte-americano.
Fonte: O Globo, 22 de abril de 2026

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