Vacina da Raiva
Perry Mason
(1957-1966) – Margo Moore
Está em
causa quem moldou o discurso público. Quem teve acesso privilegiado à
informação. Quem pediu confiança — e nem sempre a mereceu. E isto desmonta a
ideia de que havia consenso sólido, inabalável. Havia, sim, uma gestão política
de incerteza apresentada como certeza científica
A covid foi apresentada como um momento de clareza absoluta: havia uma linha certa, uma posição correta, uma única forma legítima de pensar/agir. Quem divergisse era rapidamente catalogado — não como alguém com uma perspetiva diferente, mas como alguém moralmente defeituoso. Um “chalupa”. Um “negacionista”. Uma ameaça.
Era tudo muito eficaz. E profundamente redutor.
Aconteceu-me. Até ao nível da ameaça.
Passados estes anos, começam a surgir fissuras nessa
narrativa imaculada. Não por teorias, não por opiniões — mas por factos.
Esta semana, ficámos a saber que a atual ministra da Saúde,
Ana Paula Martins, discordou da vacinação universal de crianças saudáveis.
Opunha-se, e bem, a tratar todos por igual num contexto de risco desigual.
Também há uns dias, soube-se que o presidente da Associação
da Indústria Farmacêutica, rosto público da defesa da vacinação, não terá
tomado a inoculação covid. Em privado, dúvidas. Em público, convicção. Em
privado, alternativas como a ivermectina. Em público, urgência quase dramática
— “cada dia de atraso custa vidas”.
Não estamos a falar de cidadãos anónimos, confusos ou
hesitantes. Está em causa quem moldou o discurso público. Quem teve acesso
privilegiado à informação. Quem pediu confiança — e, ao que tudo indica, nem
sempre a mereceu.
E isto muda tudo. Desmonta por completo a ideia de que havia
um consenso sólido, inabalável, indiscutível. Não havia.
Havia, sim, uma gestão política de incerteza apresentada
como certeza científica. Havia, sobretudo, um grande negócio. Muitos milhões em
cima da mesa e a rolar por aí. Havia dúvidas legítimas que foram empurradas
para a margem do inaceitável.
E havia, ainda, uma enorme assimetria entre o que se dizia…
e o que era realmente pensado.
Durante a covid, criou-se uma espécie de moral obrigatória.
A adesão não era apenas sanitária — era simbólica. Vacinar, por exemplo, era um
gesto de pertença. Questionar era um ato de desvio.
Mas a ciência nunca funcionou assim.
A ciência não é um bloco monolítico. Não é uma voz única.
Não é um decreto. É conflito, revisão, erro, correção. É precisamente o
contrário do que foi apresentado naquele período.
A reportagem da CMTV também por estes dias mostrou rostos,
nomes, histórias: pessoas reais que sofreram reações adversas após a vacinação,
algumas com consequências profundas, duradouras, até incapacitantes. Não são
números, não são “casos raros” abstraídos numa estatística — são vidas
interrompidas, famílias desfeitas, sombras negras. E o mais perturbador não é
apenas o sofrimento em si, é a invisibilidade: estas pessoas não tiveram espaço
no discurso público, como se reconhecer a sua existência colocasse em causa
toda a narrativa e a narrativa fosse mais importante. Pois é: ignorá-la coloca
em causa a nossa humanidade coletiva.
Entretanto, a adesão da população caiu a pique. Por isso, o
Estado reduziu as encomendas mas pagou na mesma as vacinas não usadas. Ou seja,
o Estado já indemnizou os laboratórios. Paguei eu e pagaste tu… e a
indemnização às vítimas destas injeções experimentais é para quando?
Não espero unanimidade na retrospetiva. Nem peço atos de
contrição. Peço algo mais simples: honestidade.
Honestidade para reconhecer que o debate foi condicionado.
Que houve posições que mereciam ter sido ouvidas. Que nem tudo era tão linear
como se quis fazer parecer.
Porque, no fim, a pergunta que fica não é sobre a covid.
Entre vítimas diretas e indiretas, entre lesados da vacina, da censura, dos
confinamentos, a pergunta que fica é sobre a raiva ao próximo. E essa é a mais
difícil de vacinar.
Joana Amaral Dias
Fonte: SAPO, 15 de abril de 2026

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