178 anos após a abolição da escravatura, os deputados franceses revogaram por unanimidade o “Code noir”
A
Assembleia Nacional francesa aprovou por unanimidade, esta quinta-feira, 28 de maio,
a revogação do “Code noir” e do conjunto de textos que regulamentaram a
escravatura nas colónias francesas, nunca formalmente revogados após 1848
Os 254 deputados presentes, de todos os grupos políticos,
apoiaram a proposta de lei que visa a revogação destes decretos reais dos
séculos XVII e XVIII. Estes textos faziam,
nomeadamente, das pessoas escravizadas “seres móveis” (propriedades), suscetíveis
de serem adquiridos como qualquer bem, ou estabeleciam sanções em caso de fuga
- orelhas cortadas, marcação a ferro de lis, até à pena de morte.
Vinte e cinco anos após a lei Taubira, que reconheceu o
tráfico e a escravatura como crime contra a humanidade, Max Mathiasin, deputado
da 3.ª circunscrição da Guadalupe, Antilhas francesas, apelou a “um ato
poderoso de memória, de justiça e de reconhecimento”, mesmo que não possa
“saldar sozinho as feridas da história”.
Emocionado até às lágrimas após a votação, Max Mathiasin, saudou “um passo
adicional, uma homenagem aos homens e mulheres, às crianças escravizadas”.
O “Code noir” “já não tem efeitos há muito tempo, mas a sua
marca e o seu peso continuam presentes”, afirmou a ministra
dos Ultramar, Naïma Moutchou, apelando a “retirar do nosso direito
um texto indigno”.
Os debates centraram-se largamente na história da
escravatura e colonial francesa, bem como nos efeitos
ainda visíveis hoje através das desigualdades persistentes entre os territórios ultramarinos e a França
continental, e nas discriminações sofridas pelas pessoas negras.
“O que significa revogar o Code noir em 2026 (...) se os
Ultramares continuam a ser vistos a partir de Paris como periferias
longínquas?”, questionou Emeline K/Bidi,
deputada da 4.ª circunscrição da Reunião.
O ecologista Steevy Gustave também emocionou o hemiciclo,
evocando com voz trémula “as memórias
partilhadas pela sua bisavó Maman Bébelle”: “Ela era neta de
Ambroise Zerambe, nascido em África, depois reduzido à escravatura sob o número
336. Hoje, o seu bisneto está de pé diante de vós, deputado da República
Francesa”.
Vários parlamentares criticaram o facto de o debate decorrer
não muito longe de uma estátua de Jean-Baptiste Colbert, principal autor do
Code noir de 1685, erigida em frente da Assembleia Nacional.
Outro artigo do texto prevê ainda que o governo apresente um
relatório sobre o direito colonial e os seus efeitos a longo prazo,
nomeadamente em termos de racismo ou do lugar da
história da escravatura nos programas escolares.
“A escravatura foi uma tragédia e um crime contra a
humanidade” e “todos os tráficos foram dramas”, considerou o deputado do
Rassemblement National, Julien Odoul. O representante da extrema-direita
afirmou que o artigo “visa encerrar gerações inteiras numa lógica de culpa
(...) de ressentimento (...) de vingança”.
A deputada esquerda, da França Insubmissa, Gabrielle
Cathala, acusou-o de “revisionismo histórico deplorável”.
A proposta de lei deverá agora seguir para o Senado, ainda sem data fixada. Recebeu na semana passada o apoio do presidente francês Emmanuel Macron, que considerou que a manutenção destes textos no direito, mesmo sem efeitos jurídicos, constitui “uma traição ao que é a República”.
Os deputados adotaram ainda uma alteração que prevê que a
França reconheça que “o conjunto dos textos que institucionalizaram a redução
de seres humanos à condição de bem móvel, organizaram a sua deportação,
exploração e as violências exercidas contra eles, são indissociáveis do crime
contra a humanidade”.
Fonte: RFI, 28de maio de 2026
A linha genética é fácil de compreender: se tivessem matado Ambroise Zerambe, Maman Bébelle não teria nascido e o ecologista Steevy Gustave não teria voz trémula, nem sequer cordas vocais.

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