A dieta radical do tempo da guerra que salvou a Grã-Bretanha durante a Segunda Guerra Mundial

 

Pandora Kaaki (nome verdadeiro Mar-Anne Almosa) nutrida modelo, influenciadora digital e saudável atriz filipina

Oitenta anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial, os britânicos estão a recordar muitas batalhas travadas ao longo do seu caminho até à vitória. Uma delas nunca ou quase nunca é mencionada e foi uma das mais importantes – a batalha para alimentar uma ilha sob cerco

Na década anterior à guerra, a Grã-Bretanha importava cerca de 22 milhões de toneladas de alimentos por ano, quase dois terços das suas provisões alimentares. No início de 1940, Adolf Hitler dispôs-se a matar os britânicos à fome enviando enxames de submarinos até à América do Norte para afundar os navios que traziam alimentos essenciais do Canadá e da América. O resultado? Durante a guerra, as importações alimentares da Grã-Bretanha diminuíram cerca de metade, para cerca de 11,5 milhões de toneladas.

Durante a guerra, mais pessoas morreram de fome em todo o mundo do que devido a ataques militares, mas os britânicos nunca passaram fome. Com efeito, praticaram a dieta mais saudável que alguma vez tiveram. O efeito nas crianças foi particularmente notável: no fim da guerra, a maioria das crianças estavam mais saudáveis do que no início. As taxas de mortalidade infantil foram as mais baixas de há registo. O crescimento ósseo foi maior e, em média, ficaram mais altas do que antes. A taxa de doenças relacionadas com a alimentação diminuiu dramaticamente.

Poucas pessoas se veem na posição de implementar uma ideia tão radical como transformar a alimentação de um país inteiro. Mas foi isso que aconteceu a Jack Drummond, um cientista contratado pelo ministério da Alimentação, um organismo público criado em Londres pouco depois do início da guerra em 1939. Foi quase como se o momento estivesse à espera do homem: na década de 1930, Drummond fizera a primeira investigação histórica sobre a alimentação nacional, às vésperas da guerra, publicando num livro monotonamente intitulado The Englishman’s Food. Era uma combinação única de hábitos sociais bem observados e bioquímica, uma crítica científica aos ataques infligidos à saúde pública pela ignorância generalizada sobre o funcionamento da nutrição.

Drummond era uma figura de autoridade difícil de contestar. Era o protegido de Casimir Funk, um bioquímico que cunhou o termo ‘vitamine’. Drummond, decidiu eliminar o “e” do fim da palavra e identificou e designou as vitaminas A, B e C. Aos 31, anos tornou-se o primeiro professor de bioquímica da University College London, onde recrutou uma jovem assistente de investigação, Anne Wilbraham, que trabalhou com ele no livro, partilhando os créditos enquanto coautora.

O trabalho de campo para o livro estendeu-se desde aquilo que começou como uma relação extraconjugal (Wilbraham era 13 anos mais nova do que Drummond) e, após o divórcio de Drummond, em 1940, se tornou um casamento de duas mentes inquisitivas determinadas a provar como uma alimentação equilibrada poderia ser, ao nível mais básico, uma força duradoura a favor da igualdade social – e, como veio revelar-se, uma política que permitiu ganhar a guerra.

Nunca ninguém escrevera uma história multissecular sobre um povo com base naquilo que passara pelo seu estômago. As observações mais incisivas de Drummond foram sobre a Revolução Industrial, uma experiência profundamente disruptiva. Drummond descobriu que, na década de 1830, a nova classe operária urbana da Grã-Bretanha se alimentava seriamente mal, mas as consequências não eram bem compreendidas: “havia o receio”, escreveu, “de que muitas classes dirigentes pensassem que a força laboral enfraquecida pela fome nunca se juntasse num movimento organizado para exigir salários mais elevados e melhores condições de trabalho”. Ao longo do século seguinte, à medida que os salários foram melhorando, o mesmo aconteceu à alimentação da classe operária, mas Drummond descobrira um paradoxo: a alimentação dos pobres era desnecessariamente inapropriada em alimentos essenciais, enquanto a alimentação dos ricos padecia de uma abundância negativa de gula, incluindo demasiadas carnes gordas, aves de caça e sobremesas em abundância, tanto doces como salgadas.

A guerra deu-lhe poder para corrigir isso. Um racionamento estrito, aplicado a todos, diminuiu a gula e permitiu que os alimentos essenciais já não faltassem aos pobres.

Drummond deu prioridade a alimentos com vitaminas essenciais, como pão, leite e legumes. Cada família tinha um caderno de racionamento com cupões do tamanho de um selo postal. O valor dos cupões era determinado pela quantidade e tipo de alimento pelo qual os quisessem trocar, que mudava constantemente em função dos alimentos disponíveis.

Drummond aproveitou ao máximo o espaço disponível nos navios, trazendo alimentos do outro lado do Atlântico, uma linha salva-vidas fundamental no meio das perdas infligidas pelos ataques aos navios-cargueiros empreendidos pelos submarinos alemães. Na pior altura da guerra, meio milhão de toneladas de carga foi parar ao fundo do Atlântico ao longo de um mês. Ele sabia que a Califórnia e o Wisconsin produziam ovos e leite em pó, algo que ocuparia o precioso espaço dos cargueiros de uma forma muito mais eficiente e tirou partido disso. As importações de fruta, frutos secos e ovos frescos foram altamente reduzidas a fim de poupar espaço.

Outro alvo foi o açúcar. Há muito que a Grã-Bretanha era viciada em açúcar, vindo das plantações nas colónias. Ao longo do século anterior, o consumo de açúcar aumentara cinco vezes, com consequências que só os dentistas comemoraram. Durante a guerra, a quantidade de açúcar importado foi reduzida para metade. (Em 1953, para ajudar a comemorar a coroação da rainha Isabel II, o primeiro-ministro Winston Churchill – contra o conselho dos ministros – pôs fim ao racionamento de açúcar e doces. Seguiu-se uma “loucura de açúcar” e a saúde a longo prazo do país sofreu devido ao regresso de doenças relacionadas com a alimentação como a obesidade e a diabetes tipo 2.)

A dieta racionada era suplementada por aquilo que as pessoas conseguiam arranjar sozinhas. Plantaram-se legumes em floreiras. Os lotes vazios nas cidades foram entregues às famílias para cultivarem aquilo que pudessem. O coelho tornou-se uma carne popular no país. A tarte sem carne Woolton Pie, contendo um extrato escuro de levedura de cerveja em vez de sucos de carne – e assim batizada em homenagem ao chefe de Drummond, Lord Woolton, ministro da alimentação – tornou-se um alimento nacional. (Continha cerca de meio quilo de batatas, couve-flor, nabo e cenoura, tudo cortado em cubos e misturado com uma colher de sopa de flocos de aveia, coberto com uma crosta de batata ou massa de farinha de trigo, que ia ao forno até estar bem tostada.


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Uma ração semanal típica da dieta de Drummond em 1942 permitia 115 gramas de bacon e presunto por pessoa; 57 gramas de manteiga e queijo; 115 gramas de margarina e gordura alimentar; 227 gramas de açúcar; carne adicional pelo valor de um xelim e dois pence; e 57 gramas de chá. Mensalmente, os britânicos podiam receber cerca de 1,5 litros de leite fresco e um pacote de leite em pó magro; um ovo fresco e um pacote de ovo em pó; e meio aquilo de conserva de fruta (compota) a cada dois meses. Estes alimentos essenciais eram suplementados com os legumes disponíveis, muitos deles cultivados em casa.

E foi assim que ninguém passou fome. A escassez de alimentos persistiu depois da guerra, mas o racionamento foi sendo gradualmente reduzido até terminar, em 1954.

As guerras aceleram a inovação científica, geralmente para combater melhor: a Grã-Bretanha foi a pioneira do radar e do motor a jato e os EUA das armas nucleares. Drummond fez algo diferente com essa oportunidade – melhorou significativamente a saúde do povo britânico. Depois da guerra, a American Public Health Association nomeou Drummond para um prémio, dizendo que o seu trabalho era “uma das maiores demonstrações de gestão de saúde pública que o mundo alguma vez vira”. Evidentemente, após o fim do racionamento, o governo já não podia estipular uma dieta nacional, como o consumo desenfreado de açúcar da década de 1950 demonstrou. Mesmo assim, aprenderam-se lições importantes que ainda hoje são utilizadas como diretrizes oficiais numa área fundamental: os menus escolares. Fora dos portões das escolas, porém, não existe tal disciplina.

Drummond foi nomeado cavaleiro devido ao seu trabalho, mas a sua vida acabou de uma forma trágica que, ainda hoje, é um caso por resolver bastante controverso.

Em agosto de 1952, ele partiu com Anne e a sua filha mais nova para umas férias de carro em França. Certa noite, na Provença, encostaram à beira da estrada para passarem a noite a dormir no carro. De manhã, Drummond e Anne foram encontrados mortos a tiro dentro do carro. A sua filha foi encontrada nas proximidades: tinha sido espancada até à morte com a coronha de uma espingarda. Gaston Dominici, um agricultor de 75 anos foi detido e considerado culpado pelos homicídios. No entanto, após três anos no corredor da morte, a sua pena foi reduzida para prisão perpétua e, em 1960, foi libertado devido à sua idade e más condições de saúde. A sua família sempre insistiu que ele era inocente.

Não havia motivo aparente. Segundo uma teoria da conspiração persistente, Drummond, preocupado com a contaminação do leite por novos inseticidas aplicados nas pastagens, estava a utilizar a viagem como disfarce para investigar uma fábrica que produzia inseticidas na Provença. Mesmo assim não existem provas de que Drummond tivesse a menor apetência ou talento para a espionagem industrial.

No entanto, há muito que ele estudava o impacto generalizado dos agroquímicos na cadeia alimentar e o aparecimento dos alimentos processados. Drummond estava a planear uma nova edição de The Englishman’s Food, mas a sua investigação ainda mal começara. Se tivesse sido escrito, é bastante provável que o livro se tornasse um alerta na sua área – com um impacto semelhante ao que as revelações de Rachel Carson sobre os pesticidas publicadas em Silent Spring tiveram no movimento ambiental, uma década mais tarde.

Fonte: National Geographic Portugal, 3 de janeiro de 2026

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