A dívida dos Estados Unidos já é maior do que a economia, mas Trump continua a pedir orçamento para as guerras (e não só)
A
América passou mais uma linha vermelha, mas em Washington quase ninguém parou
para olhar para o chão
A dívida federal detida pelo público ultrapassou o tamanho
da própria economia, segundo cálculos citados pelo New York Times,
chegando a mais de 100% do produto interno bruto. Uma marca simbólica, redonda,
fácil de transformar em manchete, discurso ou aviso solene. Durante anos, os
defensores da disciplina orçamental esperaram por este momento como quem espera
por uma sirene capaz de acordar um país inteiro. A sirene tocou. Mas ninguém
faz caso, aparentemente. A questão, como quase sempre na política americana,
não é a falta de dramatismo. É a falta de consequência.
Poucos dias depois de a marca ter sido noticiada, o
secretário da Defesa, Pete Hegseth, defendia no Capitólio o maior pedido de
orçamento militar da história dos Estados Unidos. No Senado, avançava ao mesmo
tempo um pacote de 72 mil milhões de dólares para reforço da política
migratória, usando o mecanismo da reconciliação para contornar o bloqueio
parlamentar e afastar regras internas contra legislação que aumenta o défice. O
país acabara de atravessar um patamar que durante anos fora descrito como grave.
A resposta política foi gastar mais.
O número 100 tem força porque é simples. Não tem, por si só,
magia económica. A dívida não é uma barragem que rebenta no momento em que
ultrapassa a capacidade máxima. Uma dívida equivalente a 99% do PIB já é
pesada. O que muda é a perceção pública. E mesmo essa, desta vez, parece ter
mudado pouco.
Michael Peterson, presidente da Peterson Foundation, uma das
organizações que mais tem alertado para o tema, disse ao New York Times
que se faz “um grande caso” dos 100% sobretudo por ser um número redondo. O
verdadeiro sinal de perigo está menos no marco estatístico e mais na
trajetória: não há, por agora, fim visível para o crescimento da dívida.
Os Estados Unidos já estiveram aqui, mas noutra América.
Depois da Segunda Guerra Mundial, a dívida pública também
superou o tamanho da economia. A diferença é que, nessa altura, começou a
descer. Crescimento forte, alguns excedentes orçamentais e a inflação ajudaram
a reduzir o peso real da dívida. Em 1974, a dívida federal detida pelo público
tinha caído para 23% do PIB. Hoje, o caminho projetado é o inverso. O Congressional Budget Office estima que a dívida possa
continuar a subir até atingir
175% do PIB em 2056.
A explicação vem de longe e não cabe num só presidente,
claro, nem num só partido. A dívida cresceu com a resposta à crise financeira
de 2007-2008, voltou a disparar com a pandemia, foi alimentada por cortes de
impostos sem cortes equivalentes na despesa, pelo envelhecimento da população,
pelos custos crescentes da Segurança Social e dos programas de saúde, e agora
pela própria fatura dos juros.
Durante anos, as taxas muito baixas tornaram a dívida
suportável. Essa fase acabou. A yield das
obrigações do Tesouro a 30 anos chegou recentemente aos 5,12%, o
valor mais elevado desde 2007, e os pagamentos líquidos de juros já ultrapassam
a despesa com a Defesa, de acordo com o New York Times.
É aqui que o problema deixa de ser abstrato. Uma dívida
maior obriga o Estado a emitir mais dívida, também para pagar juros da dívida
antiga. E quanto mais juros paga, menos margem sobra para o resto:
investimento, saúde, defesa, resposta a crises, redução de impostos ou simples
escolha política.
Ellen Zentner, economista-chefe da Morgan Stanley Wealth
Management, resumiu o diagnóstico ao jornal americano de forma concludente:
quando os clientes lhe perguntam se o caminho da dívida americana é
sustentável, a resposta é uma das mais fáceis. “Não é.”
O Japão como credor, não como um exemplo
E a quem deve a América, já agora? Antes de chegar ao Japão,
vale a pena arrumar uma ideia repetida tantas
vezes, embora errada: os Estados Unidos não devem “à China”. Não
assim. Não sobretudo. A dívida americana está espalhada por milhões de títulos
do Tesouro, guardados em balanços muito diferentes: bancos, seguradoras, fundos
de pensões, investidores, governos estaduais e locais, bancos centrais
estrangeiros, a Reserva Federal e até fundos do próprio Estado federal. É uma
dívida com muitos rostos e, tantas vezes, nenhum rosto.
Esta semana, a dívida total dos EUA rondava os 38,95 biliões de dólares, cerca de 33,5 biliões de euros. A maior parte — aproximadamente 26,9 biliões de euros — era dívida detida pelo público. Outros 6,6 biliões de euros estavam dentro da própria máquina federal: dinheiro que o Tesouro deve a contas e fundos do Estado americano.
Na lista dos credores
estrangeiros, o Japão
aparecia em primeiro lugar, com cerca de 1,07 biliões de euros. O Reino
Unido vinha depois, com aproximadamente 772 mil milhões de
euros. A China surgia em terceiro, com perto de
596 mil milhões de euros. Só que mesmo esta fotografia tem zonas de certo
desfocadas: os números mostram onde os títulos estão registados ou guardados,
mas nem sempre dizem quem está no fim da cadeia. Um título atribuído ao Reino
Unido, por exemplo, pode pertencer a investidores que apenas usam essas praças
financeiras para chegar à dívida americana. Podem ser o lugar por onde o
dinheiro passa, não necessariamente o lugar de onde o dinheiro vem.
Mas por falar no Japão. O Japão vive com uma dívida muito superior à da
América. O Fundo Monetário Internacional situava a
dívida do governo central japonês em 201% do PIB em 2024. Mas a
comparação com os americanos tem limites. A dívida japonesa está quase toda nas
mãos de investidores domésticos. A americana depende muito mais de
financiamento externo. E os Estados Unidos têm obrigações futuras — Segurança
Social, Medicare e outros compromissos — que não aparecem integralmente na
fotografia oficial da dívida, mas pesam na conta de longo prazo.
Are you worried?
O paradoxo é que os americanos estão preocupados, mas não
necessariamente mobilizados.
Numa sondagem Gallup de março, metade dos inquiridos dizia
estar muito preocupada com a despesa federal e os défices, quase ao mesmo nível
da inflação e da economia. Só a disponibilidade e o custo dos cuidados de saúde
apareciam acima. Portanto, a inquietação existe. Falta-lhe é uma tradução
política.
Talvez porque a dívida é distante, técnica, filtrada por
especialistas, média e partidos. Não chega à vida quotidiana com a nitidez de
uma renda, de um seguro de saúde ou de uma prestação da casa — embora a subida
das taxas já esteja a empurrar também as prestações do crédito à habitação.
O problema para Washington é
que fazer nada continua a ser mais fácil do que fazer alguma coisa.
Reduzir a dívida exigiria uma combinação politicamente tóxica: provavelmente
aumentar impostos, certamente cortar despesa, talvez rever programas sociais,
possivelmente mexer em orçamentos militares, na certa ter de contrariar
promessas eleitorais. Cada opção tem um eleitorado contra. Cada adiamento tem
uma justificação. E, até agora, a catástrofe anunciada não chegou.
Jason Furman, economista de Harvard, também se preocupa com
a dívida, mas o New York Times recorda que o próprio admitiu, num artigo
para o Aspen Institute, que uma economia com dívida de 100% do PIB e défice de
6% teria levado muitos, há duas décadas, a antecipar “juros extremamente altos”
ou mesmo “uma crise económica dramática”. Nada disso aconteceu, pelo menos por
agora.
Essa ausência de choque é talvez o maior conforto e o maior
risco. A economia americana não entrou em colapso por a dívida superar o PIB.
Os mercados não fugiram em pânico. O dólar não perdeu de um dia para o outro o
estatuto de moeda dominante. Mas a política habituou-se a essa resistência como
se fosse uma garantia eterna. E a dívida, ao contrário de uma crise súbita, não
precisa de rebentar para mudar um país. Pode estreitar lentamente as escolhas,
encarecer o futuro, consumir orçamentos e deixar o próximo choque — uma guerra,
uma recessão, uma pandemia, uma crise financeira — mais caro de enfrentar.
Fonte: CNN Portugal, 17 de maio de 2026

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