A história do jovem pastor que encontrou no deserto uma base militar secreta de Israel utilizada contra o Irão. Acabou morto
Awad
al-Shammari saiu de casa para comprar mantimentos e nunca voltou
Tinha 29 anos, era pastor, conhecia o deserto como quem
conhece uma sala antiga, e atravessava naquela tarde de 3 de março a região
áspera e quase vazia de al-Nukhaib, no oeste do Iraque, quando viu o que não
devia ter visto: soldados, helicópteros, tendas e uma pista improvisada no meio
da areia.
O que parecia apenas mais uma deslocação de rotina até à
vila mais próxima acabou por abrir uma das histórias mais sensíveis da guerra subterrânea entre Israel e o Irão.
Segundo uma investigação do New York Times, o local
encontrado por al-Shammari era uma base secreta
israelita, montada em território iraquiano para apoiar operações militares
contra o Irão. Mais tarde, as autoridades iraquianas confirmaram ao
jornal norte-americano a existência de uma segunda instalação, também escondida
no deserto ocidental do país.
O Iraque, que não tem relações diplomáticas com Israel e
onde a opinião pública vê o Estado israelita como "inimigo",
tornou-se assim palco involuntário de uma operação militar estrangeira
conduzida por uma potência hostil.
Mas a base que o pastor terá descoberto não nasceu com a
atual guerra. De acordo com responsáveis regionais ouvidos pelo New York
Times, começou a ser preparada por Israel
no final de 2024 e terá sido usada, primeiro, durante a guerra
de 12 dias contra Teerão, em junho de 2025.
A função era prática e militarmente valiosa: encurtar
distâncias, apoiar aeronaves, permitir reabastecimento e prestar cuidados
médicos. Uma instalação temporária, feita para a guerra e para desaparecer da
paisagem antes de se transformar num problema político. Mas o deserto, às
vezes, devolve aquilo que os Estados escondem.
Al-Shammari ainda terá
contactado o comando militar regional iraquiano para comunicar o que vira.
Pouco depois, a família e as autoridades perderam o contacto com ele.
Três testemunhas beduínas contaram que viram um helicóptero
perseguir a carrinha do pastor e disparar repetidamente até o veículo parar em
chamas. Durante dois dias, os familiares procuraram-no. Encontraram depois a
carrinha carbonizada e o corpo queimado. Foi enterrado junto ao veículo, sob
uma campa simples, rasa.
Israel recusou comentar tanto a existência das bases como a
morte do pastor.
Irão pode vir a ter "envolvimento militar mais
direto no Iraque"
O segredo, claro, deixou de pertencer apenas aos serviços
militares. No dia seguinte ao alerta de al-Shammari, as unidades iraquianas aproximaram-se da zona. E foram
atacadas. Um soldado morreu, dois ficaram feridos e dois veículos foram
atingidos antes de a força recuar.
Em público, o comando iraquiano falou em forças
“estrangeiras” e anunciou uma queixa no Conselho de Segurança das Nações
Unidas. Em privado, segundo responsáveis citados pelo New York Times, a
chefia militar iraquiana perguntou aos norte-americanos se aquela força era dos
Estados Unidos. A resposta terá sido negativa. “Então percebemos que era
israelita”, afirmou o general Ali al-Hamdani, comandante das Forças do Eufrates
Ocidental.
Esta pergunta à América torna a história maior do que uma
base clandestina israelita. Desde a invasão norte-americana de 2003, Bagdade
vive como que presa entre Washington e Teerão: é dependente da arquitetura
militar dos Estados Unidos e está pressionada pela força política, religiosa e
armada do Irão. O aparecimento de postos israelitas em solo iraquiano rasga
esse equilíbrio já frágil. Se os norte-americanos sabiam — e a investigação do
jornal indica que pelo menos uma parte do dispositivo era conhecida em
Washington —, Bagdade foi mantida no escuro ou alguns dos seus comandos
militares calaram a informação. Ambas as hipóteses são, no mínimo,
politicamente perigosas.
O deputado iraquiano Waad al-Kadu, que participou numa
reunião parlamentar confidencial sobre o caso, resumiu a indignação em termos
nada neutros: falou num “desrespeito gritante” pela soberania iraquiana. Outro
parlamentar, Hassan Fadaam, disse que a instalação de al-Nukhaib, denunciada
pelo pastor Awad al-Shammari, era apenas a que tinha sido descoberta. A outra continuava por localizar publicamente.
A versão oficial de Bagdade continua a ser cautelosa, quase
ao ponto de parecer negação. Um porta-voz das forças de segurança iraquianas
afirmou que o país “não tem informação” sobre a localização de bases militares
israelitas. Só que essa prudência não resolve o dilema. Pelo contrário: expõe a
fragilidade de um Estado que pode ter sido incapaz de detetar forças
estrangeiras no seu território durante meses, ou incapaz de dizer aos
iraquianos o que sabia.
Também para os Estados Unidos a revelação é incómoda. A administração norte-americana tem pressionado o Iraque
para reduzir a influência iraniana, desarmar milícias pró-Teerão e
limitar o seu peso no aparelho de segurança. Mas, se a cooperação com
Washington passar a ser lida em Bagdade como cobertura indireta a operações
israelitas, esse esforço pode virar-se contra si próprio. Para as milícias alinhadas
com o Irão, a história oferece um argumento forte, pois desarmar seria confiar
num Estado que nem controla o próprio deserto, ou num aliado norte-americano
que não conta tudo.
Ramzy Mardini, fundador da Geopol Labs, uma consultora de
risco sediada no Médio Oriente, pôs o problema em poucas palavras ao New
York Times: “O envolvimento com os Estados Unidos arrisca agora ser
enquadrado como alinhamento com Israel”. Numa guerra onde quase tudo serve de
argumento para o passo seguinte, Mardini avisou ainda que, se o conflito com
Teerão recomeçar, esta história pode “fornecer um pretexto para um envolvimento
militar iraniano mais direto no Iraque”.
A base de al-Nukhaib já não
estará operacional. O estado da segunda instalação permanece desconhecido.
Ficam, porém, as perguntas que uma carrinha queimada trouxe para fora da areia:
quem sabia, quem autorizou, quem calou e quem responde pela morte de um pastor
que, ao que tudo indica, apenas se enganou no caminho certo para a verdade
errada.
A família de Awad al-Shammari diz que o caso foi ignorado e
quer uma investigação. Por agora, tem apenas uma campa rasa e um Estado a
tentar decidir se fala ou se continua em silêncio.
Fonte: CNN Portugal, 17 de maio de 2026

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