'Alemanha a chamar': como o fascista 'Lord Haw-Haw' foi julgado por traição
Com o
seu sotaque inglês caricato, o misterioso radialista transmitia para o Reino
Unido a partir de uma estação alemã, espalhando rumores e exageros nos
primeiros dias da Segunda Guerra Mundial
Três dias antes da rendição incondicional da Alemanha no Dia da Vitória na Europa, em maio de 1945, o correspondente de guerra da BBC, Wynford Vaughan-Thomas, falou a partir de um estúdio de rádio em Hamburgo, utilizando o mesmo microfone e a mesma frequência que, semanas antes, tinha transmitido propaganda nazi. "Esta noite, não ouvirão a opinião de William Joyce sobre as notícias. Pois o sr. Joyce, Lord Haw-Haw para a maioria de nós na Grã-Bretanha, teve a sua carreira de radialista interrompida de forma lamentável... Esta é a BBC, a chamar todos os nossos ouvintes na Grã-Bretanha que, durante seis anos, tiveram de aturar o tom ácido do sr. Joyce." Remexendo na secretária de Joyce, Vaughan-Thomas encontrou a sua agenda de 10 de abril de 1945: "No final, o glorioso item: 14h50 às 15h10, 'Uma pausa para recuperar o fôlego'".
Joyce fugira da cidade devastada pela guerra semanas antes, com documentos falsos, desesperado e na esperança de escapar à captura pelas forças aliadas que avançavam. Na sua última gravação, soa embriagado e derrotado: "Sempre esperei e acreditei que, em última instância, haveria uma aliança... entre a Inglaterra e a Alemanha. Bem, neste momento isso parece impossível. Ótimo. Se não for possível, só posso dizer que todo o meu trabalho foi em vão." A fita, recuperada de um gravador nazi capturado, pode nunca ter sido transmitida. Nazi devoto até ao fim, despede-se: "Es lebe Deutschland (Viva a Alemanha), Heil Hitler e adeus."
Foi um fim ignominioso para um homem que se tornara um nome
familiar no Reino Unido quando a guerra eclodiu em setembro de 1939. Os
cidadãos britânicos esperavam que Hitler lançasse um ataque catastrófico
imediatamente, mas como isso não aconteceu, a tensa calmaria foi apelidada de
Guerra das Mentiras (Phoney War). Nesses primeiros tempos, o principal
perigo na frente interna não eram os bombardeamentos, mas sim entorses e
quedas. Para dificultar a ação dos bombardeiros alemães, o governo impôs um
apagão rigoroso. Pelo Natal de 1939, uma sondagem da Gallup revelou que um
quinto da população tinha caído nas escadas, tropeçado na escuridão ou sofrido
outros ferimentos, na maioria ligeiros. As mortes na estrada quase duplicaram,
até que o racionamento de combustível reduziu o tráfego. Os locais de
entretenimento foram encerrados e as aglomerações proibidas, pelo que à noite
as pessoas tinham pouca escolha a não ser ficar em casa a ouvir rádio.
Muitos não ficaram impressionados com a programação monótona da BBC, composta por breves boletins com pouca informação, anúncios públicos pouco interessantes e conteúdos de enchimento, como os recitais de órgão de Sandy MacPherson.
Mais adiante no mostrador do rádio, os ouvintes ansiosos encontravam algo mais animado: um homem misterioso que transmitia em onda média através da Reichs-Rundfunk-Gesellschaft (RRG), nacionalizada sob o regime nazi. Com um sotaque inglês de classe alta, exagerado e anasalado, anunciava-se com a frase característica: “Germany calling, Germany calling.”
O crítico de rádio do Daily Express, Jonah
Barrington, em 1939, apelidou-o de Lord Haw-Haw, para descrever um locutor
alemão que falava inglês com um sotaque exageradamente aristocrático, marcado
por um “haw-haw” nasal típico de uma caricatura da elite britânica, e a alcunha
pegou. O objetivo de Barrington era menosprezar o propagandista alemão, mas
muitos ouvintes acabaram por gostar do impacto da desagradável novidade de
Haw-Haw. O seu estilo era entreter enquanto minava o moral do público
britânico, espalhando dúvidas através de rumores semi-plausíveis, exageros e
ridículo. Numa transmissão, falou sobre o "pânico e a confusão... que se
intensificam a cada hora" na Grã-Bretanha. "A única surpresa é que o
povo desta ilha condenada tenha demorado tanto tempo a perceber a natureza das
situações para as quais os seus políticos os tinham levado", disse.
Noutra, Haw-Haw ironizou o medo das pessoas em relação à ameaça das bombas alemãs. Ele disse: "O ministério Britânico da Desinformação tem vindo a conduzir uma campanha sistemática para assustar as mulheres e raparigas britânicas sobre o perigo de serem feridas por estilhaços de bombas alemãs. As mulheres reagiram a estas sugestões e alarmes pedindo às suas chapeleiras que fizessem os chapéus de primavera e verão com chapas de estanho muito finas." Não parece muito engraçado agora, mas talvez fosse preciso estar lá para perceber.
William Joyce, também conhecido por Lord Haw-Haw (à
esquerda), com a União Britânica de Fascistas, liderada por Oswald Mosley
No auge das emissões, seis milhões de britânicos
sintonizavam todas as noites após o noticiário das 21h00. O professor Tom
Harrisson, antigo consultor do ministério da Informação britânico, disse à BBC
em 1975 que, embora muitas pessoas não compreendessem os discursos inflamados
em alemão de figuras nazis como Goering e Hitler, Haw-Haw era "de certa
forma... bastante reconfortante também, porque ele não parecia assim tão mau.
Talvez o inimigo não fosse ser assim tão horrível".
William Joyce, também conhecido por Lord Haw-Haw, tinha-se
mudado para a Alemanha um mês antes do início da guerra com a sua segunda
mulher, Margaret, também ela fascista. Temendo ser preso em Inglaterra, renovou
o seu passaporte britânico alegando falsamente ser cidadão britânico por
nascimento. Isso revelar-se-ia um erro fatal.
Na verdade, Joyce nasceu em Brooklyn em 1906, mudou-se para
a Irlanda aos três anos de idade e cresceu no condado de Galway. Na
adolescência, durante a Guerra da Independência da Irlanda, serviu como
mensageiro à inteligência militar britânica. Este comportamento não lhe
granjeou muitos amigos na Irlanda e, quando a guerra terminou, a família partiu
para uma nova vida em Inglaterra.
Quando era jovem, Joyce sentiu-se atraído pela ideologia de
extrema-direita que se espalhava pela Europa e, em 1932, juntou-se à União
Britânica de Fascistas de Sir Oswald Mosley. Ganhou reputação como orador
apaixonado e foi nomeado diretor de propaganda do partido. Mas a maré virou
contra o partido, culminando na Batalha de Cable Street em 1936, quando os
Camisas Negras de Mosley foram atacados e repelidos por judeus e trabalhadores
irlandeses no East End de Londres. Expulso, Joyce fundou a sua própria Liga
Nacional Socialista, mas, não encontrando um ambiente acolhedor para o seu
virulento antissemitismo, cedo sentiu o chamamento da Alemanha.
Guerra de palavras
Sob a guerra de palavras de Joseph Goebbels, eram
transmitidos programas de rádio em inglês para a Grã-Bretanha. Com uma equipa
formada por fascistas britânicos e alemães anglófonos, a RRG transmitia
propaganda promovendo o estilo de vida nazi e destacando os problemas sociais
britânicos. Acredita-se que a voz original de Lord Haw-Haw era, na verdade, a
de um alemão, Wolf Mittler, mas semanas após o início da guerra, o fascista
fala-barato Joyce encontrou o emprego dos seus sonhos.
As transmissões de Joyce conquistaram um respeito relutante
mesmo entre aqueles que desprezavam a sua mensagem. O crítico e escritor Harold
Hobson escreveu ao The Times a 29 de dezembro de 1939, elogiando a
transmissão de Haw-Haw na véspera de Natal por aumentar o "espírito
festivo" com a sua alfinetada de que o racionamento tinha limitado os
britânicos a "um quarto de libra de manteiga por semana". Hobson
acrescentou que a BBC poderia ter facilmente demolido o argumento, referindo
que Haw-Haw omitiu o que os alemães recebiam, que presumivelmente era ainda
menos.
Mas depressa a piada do Lord Haw-Haw perdeu a graça. A
invasão da Dinamarca e da Noruega, a 9 de abril de 1940, foi vista como o ponto
de viragem em que a chamada Guerra das Mentiras da Grã-Bretanha terminou e a
guerra real começou. Entretanto, a perceção pública da BBC mudou drasticamente,
à medida que se reinventava como uma fonte vital de informação para as pessoas
na retaguarda e nas forças armadas. Haw-Haw tornou-se cada vez mais irrelevante
e, quando fez a sua última transmissão embriagado em abril de 1945, o jogo
tinha acabado tanto para ele como para o regime nazi.
Enquanto as forças aliadas continuavam a avançar pela
Alemanha, Joyce e a sua mulher planeavam fugir para a Suécia antes de seguirem
para a Irlanda neutra. Só conseguiram chegar ao porto de Flensburg, no Mar
Báltico, perto da fronteira da Alemanha com a Dinamarca. Usando identidades
falsas, estabeleceram-se numa aldeia próxima e, por vezes, conversavam com
soldados britânicos que não faziam ideia de quem eram. Mas um dia a sorte de
Joyce acabou quando encontrou dois oficiais britânicos enquanto recolhia lenha.
Um deles, Geoffrey Perry, contou à BBC como começaram a
falar com aquela "figura muito estranha, parecida com um mendigo". O
seu colega comentou que ele "tinha uma voz muito parecida com a de William
Joyce". Depois de uma conversa amigável sobre coníferas e árvores de folha
caduca, Perry disse ter a certeza de duas coisas: era Joyce e estava armado.
Quando o estranho pegou num tronco com as duas mãos, Perry aproveitou a
oportunidade. Antes que o homem pudesse reagir, perguntou: "Por acaso não
seria William Joyce?". Perry contou à BBC o que aconteceu a seguir:
"E a mão dele voltou para o bolso. Pensei que ele ia pegar na arma. Saquei
do meu próprio revólver, mirei baixo e disparei." A bala do oficial
atingiu Joyce nas nádegas. Uma bela ironia é que Perry era judeu e nasceu na
Alemanha: só depois de se mudar para a Grã-Bretanha, na década de 1930, é que
mudou o seu nome de Horst Pinschewer.
O ferido Joyce foi levado de volta para Inglaterra e acusado de alta traição. Mas como poderia um irlandês-americano ser acusado de trair a Grã-Bretanha? O destino de Joyce foi selado pelo seu pedido de passaporte feito à pressa na véspera da guerra.
Na foto, em cativeiro em maio de 1945, Lord Haw-Haw foi
posteriormente enforcado por traição.
O advogado mais importante da Grã-Bretanha na altura, Sir
Hartley Shawcross, disse à BBC, em 1975, que Joyce se tinha "vestido com a
Union Jack" e tinha direito à proteção da Coroa Britânica, o que
significava que era traição da sua parte ajudar o inimigo do Reino Unido em
tempo de guerra. Outros advogados discordaram, como Sir John Foster QC, que
descreveu a acusação de alta traição como "uma caçada sangrenta".
Disse no mesmo documentário: "Foi considerado culpado com base num passaporte
que obteve fraudulentamente, o que, na minha opinião, não envolvia qualquer
proteção da Coroa e, portanto, nenhuma lealdade por parte de William
Joyce".
Ainda assim, Joyce foi condenado por alta traição por se ter
"aliado aos inimigos do Rei" ao transmitir em nome destes entre 18 de
setembro de 1939 e 2 de julho de 1940, data em que o seu passaporte britânico
expirou e se tornou cidadão alemão. O caso passou por vários recursos
judiciais, mas o veredicto foi o mesmo. Permaneceu impenitente até ao fim. Na
manhã de 3 de janeiro de 1946, foi executado por enforcamento na prisão de
Wandsworth, em Londres. Foi enterrado numa cova sem identificação no terreno da
prisão.
Trinta anos mais tarde, após uma longa campanha da sua filha
Heather, os restos mortais de Joyce foram exumados e novamente sepultados no
condado de Galway. O homem que nasceu americano, viveu como alemão e morreu
como traidor britânico foi finalmente enterrado como irlandês.
Fonte: BBC, 29 de dezembro de 2025



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