Charlize Theron recorda noite em que a mãe matou o pai para salvar a família

Perry Mason (1957-1966) – Margo Moore

Atriz tinha 15 anos quando o pai, alcoolizado, disparou contra a casa onde viviam na África do Sul. Charlize Theron diz que contar o que viveu é essencial para que outras pessoas em situações semelhantes não se sintam sozinhas

Aos 15 anos, Charlize Theron percebeu que algo estava prestes a acontecer. Não viu o perigo chegar, mas ouviu-o. O som do carro a entrar na propriedade foi suficiente para a deixar em alerta. "Não consigo explicar, mas sabia que algo de mau ia acontecer", contou numa entrevista recente à The New York Times Magazine, onde voltou a revisitar uma das noites mais marcantes da sua vida.

Tudo começou horas antes, num encontro familiar. A atriz entrou apressadamente em casa de um tio, sem cumprimentar os presentes, porque precisava de ir à casa de banho. O gesto foi interpretado pelo pai como falta de respeito. "Na África do Sul, é muito importante mostrar respeito pelos mais velhos. Ele entrou numa espiral", recorda, descrevendo o momento em que a tensão rapidamente se transformou em conflito aberto.

De regresso a casa com a mãe, Gerda, Charlize tentou antecipar o pior. Pediu-lhe que dissesse que estava a dormir quando o pai chegasse. Recolheu-se no quarto, apagou as luzes e ficou em silêncio. Pela janela, virada para a entrada, percebeu pela forma como ele conduziu que a raiva não tinha abrandado. Pelo contrário, era ainda mais intensa.

Entre o medo e a sobrevivência

O pai entrou armado e começou a disparar contra as portas de aço da casa. A violência refletia também o contexto de insegurança vivido na África do Sul na altura. Mãe e filha refugiaram-se no quarto. Sem fechadura, seguraram a porta com o próprio corpo. "Ele começou a disparar através da porta. E o mais louco é que nenhuma bala nos atingiu", descreve. Ainda assim, a ameaça era clara. "Vou matar-vos esta noite."

Quando o homem recuou para ir buscar mais armas ao cofre, Gerda reagiu. Disparou primeiro pelo corredor, atingindo o irmão dele na mão após o ricochete da bala. De seguida, foi atrás do marido, que tentava armar-se novamente, e acabou por o atingir mortalmente.

Décadas depois, a atriz afirma não viver presa ao passado. "Não sou assombrada por isto", diz. Para ela, falar sobre o que aconteceu é uma forma de dar sentido à experiência: "Estas coisas devem ser faladas, porque fazem com que outras pessoas não se sintam sozinhas." Na altura, porém, sentiu o contrário. "Quando isto nos aconteceu, pensei que éramos os únicos", reconhece.

Essa perceção mudou com o tempo e influenciou o seu percurso fora do cinema. Em 2008, foi nomeada Mensageira da Paz das Nações Unidas e tem participado em iniciativas de apoio a vítimas de violência doméstica, incluindo projetos com organizações como a CARE.

No dia seguinte ao sucedido, a mãe tomou uma decisão que marcaria a forma como ambas enfrentaram o trauma. Pediu-lhe que fosse à escola e regressasse à rotina. "Não tínhamos terapeutas. Na altura, para ela, a melhor forma de seguir em frente era simplesmente continuar." Anos depois, Charlize resume o impacto dessa noite numa frase simples: "Depois do choque, percebi que ela salvou a minha vida. Isso é o mais importante."

Fonte: Jornal de Notícias, 20 de abril de 2026 

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