Como Israel manipulou a Eurovisão numa tentativa estatal de mascarar o seu estatuto de pária global
Uma investigação do New York Times revelou que Israel
impulsionou artificialmente a sua candidata na Eurovisão através de uma
campanha de influência apoiada pelo Estado, alimentando especulações de que o
seu segundo lugar na votação popular foi distorcido pela intervenção
governamental.
A campanha, que incluiu
dinheiro público, pressão diplomática, anúncios online multilingues e apelos
diretos para que os telespectadores votassem repetidamente, expôs como Israel
transformou a competição musical mais vista do mundo numa arma de soft power,
enquanto a sua imagem global se desmoronava devido ao genocídio em Gaza.
Uma investigação do Times, baseada em documentos
internos da Eurovisão, dados de votações não divulgados e entrevistas com mais
de 50 pessoas, descobriu que o governo do
primeiro-ministro Benjamin Netanyahu gastou pelo menos 1 milhão de dólares em
marketing relacionado com a Eurovisão. Parte do financiamento
veio do escritório de hasbara de Netanyahu, amplamente conhecido como o
braço de propaganda israelita no estrangeiro.
Só em 2024, os gastos do governo israelita com publicidade
ligada à Eurovisão ultrapassaram os 800 000 dólares, a maior parte proveniente
do ministério dos Negócios Estrangeiros. Uma rubrica orçamental separada do
gabinete de hasbara do primeiro-ministro terá alocado verbas para a
“promoção de votos”.
As revelações levantam sérias questões sobre se os fortes
resultados de Israel na Eurovisão refletiram um apoio público genuíno ou uma
campanha governamental coordenada, concebida para criar a aparência de
popularidade na Europa, onde a opinião pública se virou fortemente contra
Israel devido ao genocídio em Gaza.
Os governos não devem intervir na votação da Eurovisão, que
é formalmente uma competição entre as emissoras públicas e os artistas. No
entanto, o Times descobriu que os esforços de Israel foram mais
abrangentes e começaram anos antes do que se sabia. O
governo israelita vinha apoiando discretamente os esforços promocionais em
torno das suas participações na Eurovisão desde pelo menos 2018, ano em que
Israel venceu o concurso.
Os gastos aumentaram drasticamente após o início do
genocídio israelita em Gaza, quando cresceram os apelos por toda a Europa para
que o país fosse excluído da Eurovisão. Segundo o The Times, as
autoridades israelitas acreditavam que um bom desempenho demonstraria que
Israel era ainda amado pelo público europeu, apesar dos protestos em massa, dos
apelos ao boicote e das crescentes acusações de crimes de guerra.
Em 2024,
a candidata de Israel, Eden Golan, ficou em segundo lugar na votação popular e
liderou a votação em vários países onde o sentimento pró-Palestina era forte.
Os média israelitas celebraram o resultado como prova de que “o mundo, ao que
parece, não está contra nós”.
O
padrão repetiu-se em 2025, quando a representante de Israel, Yuval
Raphael, ficou em segundo lugar na classificação geral e venceu a votação
popular. Desta vez, o resultado gerou muito mais escrutínio depois de a
emissora finlandesa Yle ter revelado que o governo israelita tinha comprado anúncios
online em várias línguas incentivando as pessoas a votar em Israel até ao
limite máximo de 20 vezes.
O próprio Netanyahu publicou uma imagem nas redes sociais a
incentivar as pessoas a votar 20 vezes em Raphael. Grupos pró-Israel em toda a
Europa divulgaram mensagens semelhantes, enquanto diplomatas israelitas e
funcionários da embaixada ajudaram a mobilizar o apoio da diáspora.
O diretor do Festival Eurovisão da Canção, Martin Green,
reconheceu que a campanha de Israel foi “desproporcional” e “excessiva”, mas insistiu que não afetou o resultado. O
jornal The Times, no entanto, apurou que a União Europeia de
Radiodifusão (UER), responsável pela organização do Festival Eurovisão da
Canção, não realizou uma investigação externa completa e manteve em segredo os
dados detalhados da votação, incluindo das suas próprias estações associadas.
A controvérsia intensificou-se à medida que as emissoras de
toda a Europa exigiram explicações. A emissora da Eslovénia solicitou
repetidamente os dados da votação e ameaçou retirar-se do concurso. Espanha
apelou a um debate sobre a participação de Israel e alertou que o sistema de
votação era vulnerável à manipulação. A emissora pública da Islândia acusou
Israel de cooptar o concurso.
Com a crescente indignação, a Islândia, a Irlanda, os Países Baixos, a Espanha e a Eslovénia mobilizaram-se para boicotar o concurso de 2026 devido à contínua participação de Israel. Segundo o Times, os organizadores da Eurovisão temiam perder centenas de milhares de dólares em taxas de participação caso o boicote se alargasse.
A campanha também faz parte de uma estratégia de propaganda
israelita muito maior. Israel aumentou drasticamente o financiamento para a hasbara
(divulgação política israelita) à medida que a sua reputação internacional se
deteriora. Há relatos de que o orçamento de diplomacia pública de Israel subiu
para cerca de 730 milhões de dólares, quase cinco vezes os 150 milhões de
dólares atribuídos no ano anterior, numa tentativa de recuperar a sua imagem
após a crise em Gaza.
Fonte: Middle East Monitor, 11 de maio de 2026

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