Live Nation incapaz, Benito genial. Aconteceu tudo no show do ano no Estádio da Luz

Bad Bunny trouxe perreo, salsa e fogo de artifício, num concerto intenso que milhares de fãs viram por entre os postes que tapavam o palco

A estreia de Bad Bunny em Portugal, nesta terça-feira, ficou marcada por uma enorme festa latina no Estádio da Luz, em Lisboa — mas também por várias críticas à organização da Live Nation. Dentro do recinto, quatro postes gigantes colocados junto da estrutura do palco taparam parcialmente a visão de milhares de espectadores e dos ecrãs gigantes em diferentes zonas do estádio, incluindo nos setores VIP, onde os bilhetes custaram centenas de euros.

Ao longo das duas datas em Lisboa, marcadas para 26 e 27 de maio, são esperadas cerca de 120 mil pessoas na Luz para assistir ao fenómeno porto-riquenho. E a avaliar pela primeira noite, haverá muita coisa para corrigir nas próximas horas. Nesta noite, antes de Benito chegar, vários espectadores recusaram-se a sentar, enquanto outros se empurraram de forma mais ou menos civilizada para tentar encontrar o spot com o melhor ângulo para o palco. Pelo meio, houve discussões, gritos e blocos de cabeças demasiado juntas em poucos metros quadrados, o que colocou em causa a própria segurança do espetáculo.

Apesar da incapacidade revelada pela Live Nation em moldar um espetáculo com esta dimensão, assim que as luzes finalmente se apagaram e começaram os primeiros acordes de “LA MuDANZA”, por volta das 21 horas, o ambiente mudou completamente. O Estádio da Luz explodiu em gritos enquanto Bad Bunny aparecia sozinho no centro do palco, imóvel e quase incrédulo perante o barulho ensurdecedor de dezenas de milhares de pessoas. Durante largos segundos não disse uma palavra. Limitou-se a olhar calmamente para o estádio, respirou fundo e deixou que os aplausos aumentassem ainda mais antes de sorrir.

“Até que enfim que chegámos a Lisboa”, disse no final da primeira música, ainda visivelmente emocionado. “Não sabia que ia cantar para tanta gente esta noite. É a minha primeira vez aqui e estava ansioso para perceber o que me esperava.”

A resposta veio imediatamente sob a forma de uma explosão coletiva. Bad Bunny não entrou devagar. Entrou como se quisesse transformar imediatamente a Luz numa festa porto-riquenha. “Me Porto Bonito”, “No Me Conoce”, “Bichiyal” e “Efecto” mergulharam o estádio no caos latino, mas foi quando chegaram “Yo Perreo Sola” e “Safaera” que o recinto deixou de parecer um estádio de futebol. Ninguém parecia querer ficar parado. Havia cervejas no ar, pessoas aos saltos nas bancadas e milhares de telemóveis ao alto para gravar cada segundo.

O espetáculo, dividido em três atos, percorreu vários momentos da carreira do cantor, mas teve como base “DeBÍ TiRAR MáS FOToS”, o álbum lançado em 2025 que consolidou ainda mais o estatuto global do artista. Entre reggaeton, trap latino, salsa ao vivo, bachata e pop alternativo, Bad Bunny construiu um concerto pensado para funcionar simultaneamente como festa coletiva e experiência emocional.

A primeira parte da noite viveu sobretudo da energia explosiva do perreo. “Diles” e “MONACO” mantiveram a intensidade no máximo enquanto fogo de artifício, explosões visuais e batidas pesadas acompanhavam um estádio inteiro incapaz de respirar. Em vários momentos, parecia que Lisboa se tinha transformado em San Juan.

Uma das imagens mais inesperadas da noite surgiu quando os músicos apareceram em palco com chapéus de palha, como se fossem uma banda caribenha saída dos anos 50. A sonoridade das guitarras latinas espalhou-se pela Luz e, a certa altura, um solo inesperado de “Lisboa Menina e Moça” ecoou pelo estádio, para surpresa do público português.

Foi também nesta altura que começou a ganhar protagonismo “La Casita”, a réplica de uma casa tradicional porto-riquenha colocada no centro do palco. O espaço funcionou quase como um segundo cenário dentro do concerto e trouxe uma dimensão mais íntima ao espetáculo. Lá dentro, Bad Bunny parecia transformar um estádio de futebol numa festa de bairro porto-riquenha, rodeado de bailarinos, músicos e convidados, enquanto o público observava tudo como se estivesse temporariamente dentro da cultura caribenha.

A mudança de ambiente foi imediata. Se a primeira parte viveu sobretudo da explosão do reggaeton, “La Casita” trouxe os momentos mais emocionais da noite. “Estamos Bien”, a música exclusiva escolhida para Lisboa, foi recebida como um verdadeiro hino coletivo enquanto Bad Bunny permanecia no telhado da casa improvisada a olhar para as bancadas.

Pouco depois surgiu “CAFé CON RON”, acompanhada pelos ritmos quentes de Los Pleneros de la Cresta. Entre salsa, plena e sonoridades tradicionais porto-riquenhas, o concerto deixou de ser apenas um espetáculo de reggaeton para funcionar também como uma celebração explícita da identidade cultural de Porto Rico.

“Todos somos porto-riquenhos esta noite”, atirou Bad Bunny, perante nova explosão da Luz.

Foi também durante esta fase que surgiram alguns dos momentos mais emocionais da noite. “Ojitos Lindos” iluminou o estádio com milhares de telemóveis no ar, enquanto muitos fãs cantavam abraçados. “La Canción” deixou a Luz suspensa entre o silêncio e os gritos emocionados do público. Depois de uma das músicas mais emotivas do alinhamento, Bad Bunny ficou parado a receber a ovação merecida, ao som de “Benito, Benito”.

“As coisas mais bonitas são poder andar pelo mundo a cantar esta canção com vocês, disse o músico de 32 anos.

Nesta parte, Bad Bunny aproximou-se várias vezes da primeira fila para distribuir high fives e abraços aos fãs. Houve pessoas em lágrimas enquanto o cantor percorria lentamente a zona junto ao palco. A certa altura abraçou mesmo um fã que levava um dos chapéus de palha usados pelos músicos durante o concerto, numa das imagens mais fortes da noite.

A “Casita” continuou a crescer até transformar completamente o ambiente da Luz. Bad Bunny subiu mais uma vez ao telhado da estrutura, para perguntar bem alto: “Lisboa, querem mais perreo?” A resposta veio sob a forma de gritos ensurdecedores e de um estádio inteiro aos saltos. “Quem diria que um dia estaria aqui em Portugal?”, atirou pouco depois, antes de simular um brinde no topo da casa improvisada.

Já na reta final, o concerto entrou numa dimensão mais emocional. Durante “DeBÍ TiRAR MáS FOToS”, os ecrãs gigantes começaram a mostrar fotografias de fãs captadas antes do espetáculo e que mostravam grupos de amigos, casais e famílias ansiosas por verem Benito ao vivo.

O refrão foi cantado em coro por praticamente todo o estádio, enquanto Bad Bunny deixava uma mensagem simples: aproveitar o “presente, amar sem medo e guardar memórias antes que tudo passe”. “Deem um abraço à pessoa que está ao vosso lado”, pediu ao público.

A Luz respondeu com milhares de pessoas abraçadas, de braços no ar. No palco, bailarinos e músicos celebravam juntos como se aquela já não fosse apenas a reta final de um concerto, mas uma despedida emocional.

A festa terminou pouco depois, já perto da meia-noite, com “EoO” a fechar uma noite intensa, visualmente ambiciosa e emocionalmente muito mais forte do que muitos esperavam. Três horas depois do arranque, Bad Bunny despediu-se devagar do público português, até para continuar a ouvir milhares de espectadores a cantarem os refrões já com as luzes acesas.

Fonte: NiT, 27 de maio de 2026

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