LX90: os anos em que acelerámos até à fast food, comemos muita TV e mostrámos o rabo em manifestações
Tentação (1997)
Foi a
era da feijoada na ponte, das manifs, do consumo, das vacas loucas e das
autoestradas. Poucos não têm os últimos anos do milénio na memória, que agora
podemos refrescar com o novo livro da saga LX
"Foi uma década muito idealista, de muito otimismo,
investimento, muitos projetos e ideias em ebulição, mas também de gente que as
pôs em prática. Como disse o [músico] Rui Pregal da Cunha, se não havia e as
pessoas queriam, elas faziam." Assim foram os anos de 1990, descritos por
Joana Stichini Vilela, coautora de LX90 – A Lisboa em Que Tudo é Possível
(D. Quixote), que chegou às livrarias esta terça-feira, 14 de abril. O
lançamento acontece sábado, dia 18, às 18.00, no Mude – Museu do Design, em
Lisboa.
Essa vontade de que fala a jornalista – "é verdade que havia dinheiro mas não foi isso" – extravasou para muitos lados. Abriu autoestradas (A5 e A1 nos primeiros lugares), juntou-se a uma espécie de perestroika à portuguesa que fez chegar cadeias de fast food (em 1999, o maior McDonald's da Europa abriu no Parque das Nações), trouxe à televisão canais privados e deu azo à construção do maior centro comercial da Península Ibérica (esse mesmo, o Colombo). Tudo isto, sem nunca esquecer a mítica feijoada que entrou para o livro The Guiness Book of Records durante a inauguração da Ponte da Vasco da Gama (ação que foi, na verdade, campanha publicitária de uma conhecida marca de detergentes). Pelo meio, houve também descidas e desastres, como o "endividamento brutal" por que passou o país, as duas crianças engolidas pelas tubagens de um parque aquático (quando o sector funcionava sem legislação), o very light fatal no Estádio do Jamor, as vítimas da Sida e o estigma associado ao uso de preservativo ou a trágica colisão de Cherbakov, promessa do Sporting Clube de Portugal, que passou um semáforo vermelho embriagado e sem cinto de segurança, na Avenida da Liberdade. "Tenho 22 anos e estou inválido", desabafou na altura.
Por causa do trabalho de minúcia de Joana Vilela e
colaboradores – de Pedro Fernandes (colaborador da Time Out),
responsável pelo projeto gráfico, a Ágata Xavier, que tratou da pesquisa e
edição de imagem, passando por Catarina Moura, Luís Leal Miranda ou Rui Miguel
Tovar, nos textos – sabemos que o jogador ucraniano que naquele dia ficou
paraplégico conduzia um Renault 21, que na Margem Sul os Zulus e os Má Fila
eram dois importantes gangues ou que as raves de Xabregas surgiram para
rentabilizar o armazém arrendado pelo fotógrafo João Silveira Ramos, então
farto de esperar por autorizações da Câmara para lhe fazer obras.
"O diabo está nos pormenores e, quando os pomos numa
história conseguimos, de um certo modo, chegar ao espírito dos lugares e do
tempo. É claro que é impossível capturar o espírito de uma década num livro de
perto de 300 páginas, mas é uma cápsula do tempo possível, em que se viaja por
várias áreas da sociedade", define a coordenadora do livro, que demorou
cerca de dois anos e meio a compor, partindo de um miolo de "dezenas de
milhares de ficheiros" para chegar a 106 histórias.
Do Lusitânia Expresso ao bife de avestruz
Escolher os episódios que mais marcaram a década teve, claro, cunho pessoal. Mas o processo começou sobretudo pelo ato de "partir pedra" nos arquivos. "Nasci em 80 e havia coisas de que me lembrava. Mas, tal como nos outros livros [LX60, LX70 e LX80], começo por fazer pesquisas em livros que falam nos acontecimentos da década e depois avanço para a Hemeroteca para fazer um varrimento pelos jornais e revistas. Vou tirando fotografias às páginas e tirando notas... E às vezes surgem pistas que nos fazem ir à procura de certos temas ou histórias." É um processo dinâmico.
Inauguração da Ponte Vasco da Gama, 1998
Quem diria, por exemplo, que o episódio do Lusitânia Expresso, o ferryboat português que foi em missão até Timor-Leste com 120 pessoas a bordo e um conjunto de coroas para atirar ao mar, ia dar pano para mangas? "Era uma história a que ia dar duas páginas mas que depois tive de aumentar para o dobro", conta Joana Vilela. "Só no cemitério de Santa Cruz morrem 300 pessoas. Portugal está em choque", lê-se. Rui Marques, fundador da revista Fórum Estudante (os anos de 1990 foram também uma época de ouro para a comunicação social), tinha 29 anos e achava que se deveria fazer algo por Timor. Primeiro foi considerado louco pela ideia da embarcação; pouco depois, já se tinham juntado à missão o vice-reitor da Universidade de Brown, dos Estados Unidos, o ex-presidente da República Ramalho Eanes ou a cadeia televisiva CNN, para cobrir o acontecimento. São várias as peripécias da viagem e a ela acrescenta-se, no mesmo ano, a "mocada" que o rapper General D levou do governo por causa da música e do videoclipe com imagens do massacre e de arquivo, onde figuram o então primeiro-ministro da Indonésia, mas também Almeida Santos, ministro em vários governos portugueses, com papel ativo na causa de Timor. "A mensagem era um bocado 'a culpa também é nossa, a descolonização também não foi bem feita", conta General D no livro, explicando que depois de uma primeira transmissão televisiva, o governo censurou o videoclipe.
O cavaquismo e o seu fim
Se há histórias nebulosas, há também temas óbvios, que servem de marcadores: Lisboa Capital Europeia da Cultura, a Expo 98, o cavaquismo e o seu fim, a presidência de Jorge Sampaio. "Os momentos políticos são incontornáveis. Mas depois houve coisas que eu quis pôr, como a revista Kapa ou a Casa Enkantada", afirma Joana Vilela. A primeira, uma revista de culto dirigida por Miguel Esteves Cardoso (o "ayatollah de direita", como lhe chamou o jornalista Vicente Jorge Silva e como lembra agora o livro); a segunda, a utopia nascida da ocupação de uma casa junto à Praça de Espanha por um grupo de fervorosos contra o sistema, do qual faziam parte o hoje investigador António Brito Guterres ou o realizador Pedro Pinho.
Campanhas da associação Abraço, 1992
Sim, o livro também permite seguir percursos, lembrar o que andavam a fazer figuras destes anos de 2020 na famosa década dos excessos, desde António Costa, que dirigiu a campanha de Sampaio em 1996, a Margarida Martins, que foi porteira do Frágil, fundadora da associação de luta contra a Sida Abraço e presidente da Junta de Freguesia de Arroios até 2021, ou ainda Rui Zink, que andou pela Baixa lisboeta a gritar "Cavaco é Sexy" nas performances do grupo Felizes da Fé. "Acho que naquela altura o espaço público era mais vivido, hoje é mais de consumo. Tanto é que nos anos 90 existiram muitas manifestações, dos estudantes aos agricultores", analisa a coordenadora de LX90.
Manifestação de estudantes, 1994
Grupo Felizes da Fé, 1990
Muitas outras manifestações, no entanto, não aconteceram em
massas. Mas foi também a década de 90 que permitiu que de um grupo de cabeças
irreverentes se formassem as Produções Fictícias, preenchendo os horários
nobres de várias casas; que a chamada "doença das vacas loucas"
(encefalopatia espongiforme bovina) escancarasse as portas ao comércio de carne
de cavalo ou de avestruz e pusesse um ministro a comer mioleira no Luxemburgo,
como statement tranquilizador; ou que o glorioso Cinema Império, na Alameda, deixasse
de projetar filmes para passar a acolher os "milagres" da Igreja
Universal do Reino de Deus.
A par de um grande mundo de opostos (Casa Enkantada de um
lado, Centro Comercial Colombo do outro), a cidade era um território vivido em
grande e a várias horas, do extinto Alcântara-Café ao Lux, passando pelo Frágil
ou pelo Cacau da Ribeira. "Li à vontade mais de 100 artigos sobre a
noite", conta a autora à Time Out. Nos vários temas do livro,
"há peças pequenas e peças grandes, como num Lego, e todas fazem
falta." Também as décadas anteriores acabam por fazer parte, porque
permitiram que os 90 existissem. "Na década de 60, há a consolidação do
movimento de resistência ao Estado Novo; na de 70, a libertação, a explosão
total, o sonho de um país; na de 80, os primeiros passos da democracia e de
querer ser igual aos outros, de fazer parte, mas tudo muito lentamente; e na de
90, já é tudo possível, porque já pertencemos, já estamos lá", descreve a
autora da série que começou a ser publicada em 2012. LX90 culmina no
grande bug do ano 2000 (adeus, sistemas). E, afinal, estava tudo bem.
Fonte: Time Out, 17 de abril de 2026


















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