Na crista da onda: Portugal é o primeiro país da Europa a ter um navio porta-drones

O D. João II, com sete mil toneladas e 107 metros, custou 132 milhões de euros e destina-se a missões científicas, vigilância marítima e proteção civil. A construção está a ser terminada na Roménia, onde a SIC o foi conhecer em exclusivo

Portugal é o primeiro país da Europa a ter um navio porta-drones. O D. João II é um marco na Marinha Portuguesa e foi concebido para missões científicas, de vigilância marítima, de proteção civil e de defesa da soberania nacional.

Faltam quatro horas para a cerimónia de flutuação e, junto à doca, é grande a azáfama. Estica-se a passadeira vermelha, colocam-se as cadeiras para os convidados, dão-se os últimos ajustes às tarjas.

Tudo tem de estar pronto e devidamente engalanado. O momento não é para menos: o primeiro navio porta-drones da Europa já flutua e é da Marinha Portuguesa.





Passaram menos de dois anos desde o corte da primeira chapa. Num tempo recorde, o navio D. João II ganhou forma e tornou-se a imagem de marca de um navio porta-drones.

Mas o mais recente orgulho da Marinha Portuguesa vai ser muito mais do que um mero porta-drones. Será equipado com sistemas modulares, montados em contentores, que permitem adaptações rápidas a cada missão: defesa da soberania nacional e apoio a operações de proteção civil.

O almirante Gouveia e Melo foi o mentor da ideia de construir de raiz um navio porta-drones e multifuncional. Foi quando teve a pasta da Inovação no Estado-Maior-General das Forças Armadas que deu força ao conceito.

O projeto é de inspiração militar, mas o D. João II está sobretudo vocacionado para missões científicas. O navio está preparado para investigar muito do que está debaixo de água. Serão duas das principais valências do D. João II.

O interior do navio ainda está por equipar, mas nalguns compartimentos já é possível ter uma ideia de como vão ser.

Desenho feito em colaboração

O desenho do navio foi feito em colaboração com o Instituto Hidrográfico da Marinha. O D. João II terá um papel importante no projeto de expansão da plataforma continental portuguesa.

No mundo, há mais navios porta-drones, mas são apenas adaptações. Como o D. João II não há nenhum: é o primeiro a ser construído de raiz para esse propósito. Um navio que representa uma mudança significativa e uma mais-valia para a Marinha e para o país.

Com sete mil toneladas, o D. João II é o maior navio da Marinha Portuguesa em termos de deslocamento. Mede 107 metros de comprimento e tem capacidade para embarcar 90 elementos, incluindo guarnição e cientistas.

Em operações de socorro pode acolher até 200 pessoas. Tem pista para operar drones aéreos e um heliporto para helicópteros pesados. A autonomia chega aos 45 dias. Custou 132 milhões de euros, em grande parte financiados pelo Plano de Recuperação e Resiliência da União Europeia.

Por causa do contrato com Bruxelas, o navio não pode ser empenhado em missões de combate. Por isso, nem o navio nem os drones terão armamento.

O D. João II está a ser construído por uma empresa neerlandesa, a Damen, que venceu um concurso internacional ao qual nenhum estaleiro português concorreu.

O conceito foi integralmente desenvolvido pela Marinha, mas o projeto foi trabalhado em parceria com os estaleiros. Os direitos de propriedade industrial são partilhados entre o Estado e a construtora naval, mas a patente não foi registada.

Sem patente, a construtora é livre de tentar vender o mesmo modelo a outras marinhas. E, a julgar pelo número de contactos já efetuados, o interesse não falta.

O que é 'Trator do Mar'?

Assim que arrancou a construção do navio, foi preciso pensar nos drones que o D. João II vai transportar. À Marinha restava comprá-los ou desenvolvê-los. A decisão foi construir alguns desses drones à medida das necessidades.

E assim surge o "Trator do Mar": um drone de superfície que capta tudo o que se passa no mar, à tona, nas profundezas ou no ar.


Marco Guimarães é capitão-de-fragata e diretor da célula de experimentação de veículos não tripulados. É aqui que, diariamente, uma equipa de engenheiros da Marinha trabalha na criação e desenvolvimento de drones.

Também feito em Portugal, e relativamente perto da Base do Alfeite, está o sistema de comunicações do navio D. João II. Foi idealizado pela EID, empresa que há décadas trabalha com a Marinha.

Na Marinha, a tecnologia é não só uma necessidade, mas também parte do ADN. O D. João II é um dos principais exemplos dessa aposta, mas não é o único.

Chegada prevista para o próximo ano

O D. João II simboliza uma nova era de inovação tecnológica na Marinha e uma capacidade estratégica reforçada para o país. Um investimento a que se junta a compra de outros 12 navios. Até 2030, Portugal vai receber novas fragatas e navios reabastecedores.

O navio D. João II ficará na história pelo seu carácter inovador e pela rapidez com que passou do papel à água.

Em novembro de 2023 foi assinado o contrato com os estaleiros. Em 2024 arrancou a construção na Roménia. Em abril de 2026 o D. João II tocou água pela primeira vez e flutuou. Em 2027 chega a Portugal o navio que coloca a Marinha na crista da onda.

Fonte: SIC Notícias, 24 de maio de 2026

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