Ordem dos Médicos Veterinários já definiu orientações para casos de therians em clínicas veterinárias
Uma
reportagem da CNN Portugal revela que alguns jovens portugueses,
mascarados de animais, alegadamente procuravam atendimento em clínicas
veterinárias
Apesar de não existirem registos de médicos veterinários
portugueses que tenham recebido pedidos de consulta por parte de “Therians” — pessoas
que se identificam espiritual ou psicologicamente como animais
—, a Ordem dos Médicos Veterinários (OMV) decidiu antecipar-se ao fenómeno e
emitir orientações internas sobre como atuar nestas situações.
O tema voltou recentemente ao debate público depois de uma
reportagem da CNN Portugal revelar que alguns jovens portugueses,
mascarados de animais, alegadamente procuravam atendimento em clínicas
veterinárias.
A OMV esclareceu ao Notícias ao Minuto que “nenhum
médico veterinário inscrito na Ordem recebeu qualquer caso”. Ainda assim,
perante a crescente visibilidade do fenómeno nas redes sociais, sobretudo
através do TikTok, a entidade optou por informar os profissionais sobre os
limites legais da prática veterinária e a forma adequada de lidar com estas
situações.
No documento interno, a Ordem explica que os Therians —
também designados por teriantropos — são “pessoas que se identificam espiritual
ou psicologicamente como animais” e que, “de acordo com a literatura, este
grupo de pessoas sente uma conexão profunda com um animal específico e pode adotar comportamentos, como andar de quatro, miar ou
ladrar, muitas vezes usando máscaras e caudas”.
A OMV sublinha, contudo, que “a lei portuguesa reconhece e
tutela expressamente certas dimensões da identidade pessoal”, como acontece com
o direito à autodeterminação da identidade e expressão de género, previsto na
Lei n.º 38/2018, mas esclarece que “não prevê, nem tutela, qualquer estatuto
jurídico de ‘identidade animal’ da pessoa”.
“A pessoa que se identifica
como animal continua, para o Direito, a ser uma pessoa humana”,
acrescenta a Ordem.
O que devem fazer os médicos veterinários?
Perante um eventual pedido de atendimento por parte de um
Therian, a OMV recomenda aos profissionais duas linhas de atuação principais:
recusar a prática de atos de diagnóstico, prescrição ou tratamento médico, uma
vez que estes atos estão legalmente reservados a médicos inscritos na Ordem dos
Médicos e explicar, de forma respeitosa e
correta, que os médicos veterinários estão habilitados apenas para
tratar animais e não podem prestar cuidados de saúde a pessoas,
independentemente da forma como estas se identifiquem.
O fenómeno dos Therians ganhou notoriedade internacional
através de vídeos publicados nas redes sociais, onde jovens aparecem vestidos
ou mascarados de animais e reproduzem determinados comportamentos associados
aos mesmos.
Em Portugal, o tema tornou-se particularmente mediático
depois de, em fevereiro, ter sido anunciado um encontro
de Therians em Vila Real. O evento acabou por não se realizar devido
às críticas e reações hostis geradas pela divulgação da iniciativa.
“Nem sempre é um problema psicológico”
Em março, a psicóloga clínica Andreia Filipe Vieira explicou
ao Lifestyle ao Minuto que “uma identificação simbólica, por si só, não
é necessariamente um problema psicológico”.
Segundo a especialista, a situação apenas se torna
clinicamente relevante “se causar sofrimento significativo, isolamento extremo
ou dificuldade em viver a realidade quotidiana”.
“Como em muitas outras formas
de expressão identitária,
o essencial é perceber se a pessoa consegue
manter um equilíbrio entre o seu mundo interno e a vida prática”,
acrescentou.
Embora não existam casos registados em clínicas veterinárias
portuguesas, a OMV considera importante que os profissionais estejam preparados
para lidar com o fenómeno de forma legal, ética e respeitosa.
Fonte: PiT, 15 de maio de 2026

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