Sócrates II


O caso Spinumviva dura há ano e meio. Chamem-lhe trapalhada ou excesso burocrático. Eu chamo-lhe tráfico de influências

A Spinumviva começou na Lei dos Solos e já vai no Fisco. Pelo meio, expôs uma terrível tendência, formada pelo menos desde Sócrates: primeiros-ministros que defendem os próprios interesses/bolsos e não os do povo português.

Por que razão cerra Montenegro os dentes e os pulsos sobre a lista dos seus clientes? Quais sãos os nomes que tanto protege, em detrimento de Portugal?

Em dezembro de 2024, o governo abriu caminho à reclassificação de terrenos rústicos em urbanos: uma mina de ouro. Em fevereiro de 2025, soube-se que a família de Luís Montenegro tinha uma empresa, a Spinumviva, cujo objeto social incluía atividade imobiliária. Era um casamento perfeito.

Montenegro negou conflito de interesses, chamou absurda à suspeita e recusou alterar o objeto social da empresa. A explicação foi curta; a resistência, longa.

Ainda em fevereiro de 2025, apareceu a Solverde: uma empresa de casinos, com concessão do Estado, a pagar 4.500 euros por mês à Spinumviva. O caso deixou de ser apenas imobiliário. Passou a ser também sobre clientes, avenças, concessões públicas e promiscuidade.

Em março de 2025, em vez de esclarecer, Montenegro pediu uma moção de confiança. O governo caiu. Nesse mesmo mês, a Spinumviva passou para os filhos de Montenegro, quando era cada vez mais claro que a empresa era apenas uma rede de contactos de um político que já trazia um lastro desde a câmara de Espinho.

Em maio de 2025, Portugal foi a eleições legislativas antecipadas por causa de uma empresa que, segundo nos garantiam, não tinha importância nenhuma.

Mas a história continuou.

Em abril de 2025, o gabinete de Montenegro recorreu aos serviços jurídicos do Estado no braço-de-ferro com a Entidade para a Transparência. Mas será aceitável usar recursos jurídicos públicos numa controvérsia nascida de uma empresa familiar do primeiro-ministro?

Ainda em abril de 2025, a lista de clientes terá sido entregue à Entidade para a Transparência, mas com pedido para não ser publicitada. Entregar para poder dizer que se entregou; gato escondido com rabo de fora. Dissimulação.

Em maio de 2025, a Entidade manteve a exigência de divulgação. Em junho, Montenegro recorreu para o Tribunal Constitucional. O método repetia-se: negar, adiar, recorrer.

Em março de 2026, o Constitucional rejeitou a reclamação. A lista acabou por ser divulgada pelo gabinete, mas a Entidade para a Transparência lembrou que um comunicado não substitui obrigações legais de declaração.

Em abril de 2026, soube-se que a lista tinha sido entregue “em anexo”, num formato que impedia a consulta pública na plataforma. Não é um detalhe técnico. É a diferença entre cumprir e parecer que se cumpre.

Em maio de 2026, chegou a frente fiscal: serviços que terão sido pedidos ao escritório de Montenegro terão acabado faturados pela Spinumviva.

Enfim, esta brincadeira socrática já dura há um ano e meio.

Montenegro recusa a prestação de contas, rejeita a transparência, viola a ética republicana, nunca deveria ter sido primeiro-ministro de Portugal e deve ser afastado o quanto antes.

Chamem-lhe trapalhada ou excesso burocrático. Eu chamo-lhe tráfico de influências.

E, enquanto decorria toda esta cronologia, o Estado voltava a atribuir licenças de jogo à Solverde.

Porque, no fim, a casa ganha sempre.

Joana Amaral Dias

Fonte: SAPO, 6 de maio de 2026

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