A decisão do Brasil
O.P.J.
Pacific Sud (2019) – Marion Campan
A
bússola moral e a humanidade básica dos líderes políticos importam realmente
Em muitos países, incluindo o Brasil e os Estados Unidos, é
comum os eleitores escolherem um presidente com base no seu carácter percebido.
Em algumas eleições, este foi o fator determinante; se não, não deixou de ser
um fator importante.
Mas Jair Bolsonaro foi eleito presidente do Brasil em 2018,
apesar de ter dito publicamente: “Sou a favor da tortura — vocês sabem disso. E
o povo também é a favor”. Não foi um deslize ou uma piada de mau gosto. Em
2016, enquanto deputado federal a votar pelo impeachment da então presidente
Dilma Rousseff, dedicou o seu voto ao oficial
militar responsável por torturá-la na prisão, durante a ditadura
militar brasileira. Bolsonaro elogiou ainda a própria ditadura brasileira
(1964-1985), dizendo que o seu erro foi não ter morto pessoas suficientes.
Agora surge o filho de Jair, Flávio Bolsonaro, rumo à
segunda e última volta da eleição presidencial brasileira, no domingo, 25 de
outubro. Defendeu a saudação do pai ao torturador de Dilma e também elogiou
repetidamente a ditadura.
A relevância destas características em comum, bem como dos
valores morais — ou da falta deles — não se resume à culpa por associação. Os
Bolsonaros formam uma equipa: foi o capital político de Jair, adquirido durante
a sua presidência, que levou Flávio até onde está hoje. Flávio assumiu
publicamente esta convergência política, autointitulando-se "Bolsonaro
2.0".
Flávio concorre contra o atual presidente Lula da Silva.
Lula iniciou a sua carreira política como dirigente sindical numa fábrica e foi
presidente do Brasil de 2003 a 2010. É claro que Lula é pró-democracia e nunca
elogiaria a ditadura, contra a qual lutou, ou os assassinatos políticos. Tem
valores diferentes dos da equipa Bolsonaro.
Esta diferença de valores manifesta-se também em grandes
divergências sobre políticas que moldam a vida, as oportunidades e o nível de
vida das pessoas. Mais recentemente, a 16 de outubro, o Congresso brasileiro
aprovou uma emenda constitucional que prevê uma grande melhoria na vida de
milhões de trabalhadores. Reduz a semana de trabalho de seis para cinco dias,
estabelecendo também uma semana de trabalho de 40 horas em 14 meses; a semana
de trabalho reduzida não acarreta qualquer perda salarial.
Durante meses, Flávio e os seus aliados opuseram-se e
bloquearam vigorosamente esta reforma, enquanto Lula lutava por ela. Isto
continuou até à semana anterior à votação; à última hora, Flávio votou a favor
como senador. Mas, segundo os relatos da imprensa, parece que Flávio e os seus
aliados tentariam revertê-la caso ele ganhasse, pelo que os trabalhadores
teriam de aceitar cortes salariais pela redução do horário de trabalho.
A atual presidência de Lula conseguiu reduzir a pobreza em
27% e a pobreza extrema em mais de 40%; o desemprego desceu de 9,3% para um
mínimo histórico de 5,4%; e o salário mínimo real aumentou 12,7%. Os seus dois
primeiros mandatos produziram ganhos ainda mais expressivos. É evidente que
estes e outros avanços não podem ser esperados de um governo Bolsonaro,
considerando o seu historial, metas declaradas e procuradas, e valores.
Estes objetivos e valores fizeram dos Bolsonaros aliados da dupla Trump/Rubio, por razões óbvias. No que
diz respeito à violência, o próprio Trump ameaçou, por duas vezes nos últimos
meses, aniquilar a população do Irão. Flávio alinhou pela política externa de
Trump, incluindo na Guerra do Irão. Neste hemisfério, apoiou os ataques
militares norte-americanos que mataram centenas de pessoas em pequenas
embarcações ao largo da costa da América do Sul desde 2 de setembro de 2025,
alegando (sem provas) que transportavam droga para os Estados Unidos.
Rubio e Trump intervieram
fortemente para ajudar Flávio nesta eleição; isso está bem
documentado. Por sua vez, Flávio prometeu que o Brasil se unirá ao “Escudo das
Américas” caso vença. Este é um bloco político e militar fundado pelos EUA e
liderado por Trump, criado para reafirmar e consolidar o domínio dos EUA sobre
a América Latina e as Caraíbas.
Flávio está a ser investigado por mais de 12 milhões de
dólares, alegadamente por um filme que terá encomendado a um banqueiro preso
pelo maior escândalo de fraude bancária da história do Brasil. O escândalo
resultou em quase 8 mil milhões de dólares em reembolsos a depositantes. Nada
disto parece ter afetado o sentido de importância divina de Flávio: “Deus escolheu-me para salvar o Brasil”,
declarou. A 10 de outubro, descreveu a sua campanha como uma “guerra
espiritual”.
O aliado mais importante dos Bolsonaros no mundo, Donald J.
Trump, dirigiu duras críticas ao Papa Leão XIII em abril, porque o papa se opõe
à sua guerra contra o Irão. Durante esta controvérsia, o papa proferiu algumas
palavras contundentes, claramente dirigidas a Trump, embora pudessem aplicar-se
igualmente aos parceiros de Trump no Brasil.
“Bem-aventurados os que promovem a paz!”, disse o Papa Leão
XIII. “Mas ai daqueles que manipulam a religião e o próprio nome de Deus para
obter ganhos militares, económicos e políticos, arrastando o que é sagrado para
as trevas e a imundície.”
Fonte: The Nation, 21 de
outubro de 2026

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