A fralda suja que ajudou um espião do KGB a fugir da União Soviética

O presidente dos EUA, Ronald Reagan, reúne-se com o desertor do KGB Oleg Gordievsky, no Salão Oval da Casa Branca, EUA, 1987

Em julho de 1985, um coronel do KGB, que trabalhava secretamente para os britânicos, fugiu da União Soviética escondido na mala de um carro. Na fronteira com a Finlândia, uma fralda suja (e um pacote de batatas fritas) ajudaram a afastar os cães que procuravam Oleg Gordievsky

Dois anos antes, Gordievsky dera ao Ocidente um testemunho valioso sobre o medo de uma guerra nuclear em Moscovo. O exercício Able Archer 83, realizado pela NATO de 7 a 11 de novembro de 1983, simulava uma escalada militar na Europa até ao uso de armas nucleares, incluindo a passagem ao nível DEFCON 1, o alerta máximo norte-americano.

Era só um exercício, mas os serviços secretos soviéticos, envolvidos numa operação chamada RYaN para detetar sinais de um ataque surpresa ocidental, recearam que fosse uma cobertura para uma ofensiva verdadeira. As forças soviéticas entraram em alerta.

Na embaixada soviética em Londres, Gordievsky enviou a Moscovo um relatório sem provas de um ataque iminente. Ao MI6, o serviço secreto externo britânico, contou como o Kremlin vivera aqueles dias. O medo soviético surpreendeu responsáveis britânicos e norte-americanos, lembra o Smithsonian.

O exercício terminou sem incidentes em 11 de novembro. Gordievsky é frequentemente apontado como alguém que ajudou a reduzir o risco de uma escalada, embora os historiadores discordem sobre o perigo real. Alguns comparam a crise à dos mísseis de Cuba, em 1962. Outros rejeitam essa interpretação.

Espião de berço

Nascido em Moscovo, em 1938, Gordievsky seguiu as pisadas do pai, antigo oficial do NKVD, a polícia política soviética da era de Estaline. Estudou diplomacia, entrou para o KGB e aprendeu várias línguas europeias.

A primeira missão, em Berlim, coincidiu com a construção do muro, em 1961. Foi aí que começou a questionar o regime. As dúvidas agravaram-se em 1968, quando soube, já colocado em Copenhaga, da invasão da Checoslováquia pelas tropas do Pacto de Varsóvia, que esmagou a Primavera de Praga.

Tentou contactar os serviços de contraespionagem ocidentais, sem sucesso. Depois de um regresso a Moscovo, voltou à Dinamarca para uma segunda missão. Os serviços secretos dinamarqueses e o MI6 viam-no como um possível informador. Em 1974, começou a trabalhar secretamente para os britânicos, sob o nome de código SUNBEAM.

Em 1978, regressou à União Soviética. O KGB descobrira que se divorciara de Yelena e vivia com Leila Alieva, com quem teve duas filhas. Os superiores consideraram a situação uma violação das regras de conduta.

Gordievsky evitou contactos com estrangeiros, aprendeu inglês e conseguiu uma colocação em Londres, em 1982. Acabou por dirigir a estrutura do KGB na embaixada soviética, o que lhe dava acesso às informações dos espiões soviéticos no Reino Unido.

O MI6 passou a chamá-lo NOCTON. Para a CIA, que recebia as informações sem conhecer a identidade do agente, era TICKLE. Os britânicos também o ajudaram a progredir na carreira, fornecendo-lhe informações valiosas e criando dificuldades aos colegas.

Foi Gordievsky quem alertou os britânicos para a importância de Mikhail Gorbachev, antes de este se tornar secretário-geral do Partido Comunista soviético, em 1985.

Moscovo sem bilhete de volta

A rápida ascensão levantou suspeitas. Em maio de 1985, o KGB ordenou-lhe que voltasse imediatamente a Moscovo. Entretanto, Aldrich Ames, um agente da CIA que também espionava para a União Soviética, descobrira quem era o informador conhecido como TICKLE.

Ames poderá ter revelado o nome ao coronel soviético Viktor Budanov, que já suspeitava de Gordievsky. Nunca foi provado. O FBI contestou essa versão. Ames foi detido em 1994.

O MI6 ofereceu-lhe refúgio e uma nova identidade no Reino Unido. Gordievsky preferiu regressar a Moscovo, com um plano de fuga de emergência. Ao chegar, foi levado a uma casa de campo de Budanov, onde lhe administraram drogas para o fazer falar.

O interrogatório durou cinco horas. Sem provas suficientes contra ele, o KGB afastou-o das funções anteriores, proibiu-o de deixar o país e obrigou-o a instalar-se em Moscovo com a família. Gordievsky sabia que corria perigo.

Operação Pimlico

Em julho, conseguiu despistar os agentes que o seguiam e ativou o sinal de emergência combinado com o MI6. Apareceu numa esquina com um saco do supermercado Safeway. Um agente britânico esperava-o com um saco dos armazéns Harrods, enquanto comia um chocolate Mars. Era a confirmação de que a fuga ia avançar.

O plano, chamado Operação Pimlico, fora preparado em 1978 por Valerie Pettit, uma agente britânica que o acompanhara na Dinamarca.

Pettit ao lado de Gordievsky quando pararam para uma fotografia durante a ousada fuga pela Finlândia

Segundo uma anedota, a autorização quase se atrasou porque Margaret Thatcher estaria no castelo de Balmoral, ocupada a reparar o videogravador da Rainha-Mãe. Acabou por chegar.

A operação começou em 19 de julho de 1985. Gordievsky saiu para correr, despistou novamente a vigilância e apanhou um comboio para Leninegrado. Dali seguiu para a fronteira finlandesa, onde esperou escondido numa vala.

O diplomata britânico Roy Ascot chegou num Ford Sierra, acompanhado pela mulher, Caroline, e pela filha de ambos, Florence, de 15 meses. Gordievsky escondeu-se na bagageira. Num segundo automóvel seguiam Arthur Gee, secretário de Ascot, e a mulher, Rachel.

Na fronteira, os guardas soviéticos aproximaram cães dos carros. Rachel deu a um deles batatas fritas com sabor a queijo, perturbando-lhe o olfato. Caroline começou a mudar a fralda suja da filha sobre a tampa da mala. O outro cão afastou-se. Os veículos passaram para a Finlândia, de onde Gordievsky voou para Londres.

Condenado à morte, mas…

A União Soviética condenou-o à morte à revelia por alta traição. A mulher, que nada sabia da fuga, estava de férias com as filhas no Azerbaijão. Foi interrogada e viveu seis anos sob vigilância, proibida de abandonar o país. Só voltou a encontrar o marido em 1991.

No Reino Unido, Gordievsky escreveu livros sobre espionagem, trabalhou numa revista militar e recebeu várias distinções pelos serviços prestados à segurança britânica.

Em 2007, sofreu uma paralisia parcial e ficou inconsciente durante cerca de um dia e meio. Afirmou que comprimidos de Xanax, comprados a um conhecido russo em Inglaterra, tinham sido adulterados com tálio, um metal altamente tóxico. Suspeitava de uma tentativa de assassinato ligada a Moscovo, mas nunca foi comprovada.

Sobreviveu, embora tenha perdido sensibilidade nos dedos. Morreu em Inglaterra, em março de 2025, aos 86 anos. Continua a ser o oficial de mais alta patente do KGB que desertou para o Reino Unido.

Fonte: ZAP, 24 de outubro de 2026

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