Bordalo II pôs a polícia numa tenda no Rossio. Tudo pelo direito à Habitação
A
instalação inclui uma farda, um escudo e um cassetete. O artista acusa o Estado
de mobilizar as forças de segurança para a violência
Uma tenda com as cores da PSP e a palavra “polícia” escrita
no tecido. Ao lado, uma farda, um escudo e um cassetete. É com estes elementos
que Bordalo II leva ao Rossio, em Lisboa, uma nova intervenção sobre o direito
à habitação e a atuação das forças de segurança nos protestos. A publicação
desta sexta-feira, 30 de outubro, em que apresenta o trabalho tem um título que
aproxima as duas ideias: “Casa/causa”.
Na legenda, partilhada em português e inglês, o artista
defende que a mobilização por uma casa ultrapassa as necessidades de quem está
hoje na rua. O que se procura conquistar, escreve, terá consequências também
para quem vier depois.
“Quando lutamos por direitos fundamentais, como a habitação,
não estamos apenas a defender os nossos interesses, estamos a fazê-lo em
representação de todos, incluindo as futuras gerações.”
A instalação surge no contexto das manifestações pela
habitação e das intervenções policiais para retirar as tendas dos
manifestantes. Ao reproduzir num equipamento de campismo a identificação da
polícia, Bordalo II junta no mesmo objeto um símbolo do protesto e uma
referência às forças que têm atuado nos acampamentos.
O artista recorda também que os direitos atuais resultam de
reivindicações anteriores. Na sua mensagem, destaca quem aceitou expor-se para
conseguir mudanças que acabariam por beneficiar outras pessoas, rejeitando que
a aparência dos manifestantes desvalorize aquilo que defendem.
“Independentemente da indumentária, do tamanho da franja ou
da quantidade de brincos”, escreve, houve quem se dispusesse a dar “o seu
corpo, o seu tempo e a sua segurança” por esse objetivo coletivo.
A crítica dirige-se depois ao Estado português, que acusa de
utilizar as forças de segurança para responder com violência à contestação.
“Infelizmente, mais uma vez o Estado escolheu instrumentalizar as forças de
segurança, mobilizando-as para a violência”.
A publicação termina com um apelo: “Quem quer alimentar a
violência que atire a primeira pedra!”
A habitação tem sido um tema recorrente nas intervenções do
artista. A 15 de outubro, colocou um anúncio com a inscrição “Vende-se” sobre
as letras azuis do Porto, em frente à Câmara Municipal. O trabalho foi
divulgado numa altura em que os protestos se concentravam na Praça D. João I,
perto daquele local
Já em agosto de 2025, o artista tinha instalado no Cais das Colunas um anúncio fictício de venda de Lisboa. A linguagem de promoção imobiliária servia para criticar a transformação da capital numa cidade inacessível a grande parte de quem nela quer viver.
Desta vez, Bordalo II escolheu uma tenda e o Rossio para
voltar ao assunto. A mensagem que acompanha a instalação começa por enunciar a
causa: “Uma casa onde morar é um direito fundamental pelo qual todos têm o
direito e o dever de lutar.”

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