Foi enterrada há 400 anos com uma foice sobre o pescoço. Porque tinham tanto medo dela?

Uma sepultura com 400 anos continha o corpo de uma jovem, com a lâmina enferrujada de uma foice colocada sobre a garganta e um cadeado preso a um dos pés - sinais macabros do pavor que aquela comunidade sentia perante a possibilidade de a jovem voltar à vida

Em 2022, os arqueólogos descobriram o esqueleto de uma jovem numa sepultura sem identificação, perto da aldeia de Pień, no norte da Polónia, e deram-lhe o nome de Zosia. A descoberta macabra foi notícia em todo o mundo e, em 2024, o documentário "Field of Vampires" acompanhou os investigadores enquanto procuravam reconstruir o rosto que a jovem poderá ter tido.

Alguns desses mesmos cientistas publicaram o primeiro estudo sistemático sobre Zosia, recorrendo à análise de ADN antigo e a outras técnicas científicas avançadas para tentar descobrir quem era a jovem, como morreu e por que razão ela, e possivelmente outras pessoas enterradas no mesmo terreno há cerca de 400 anos, pareciam ser temidas como vampiros ou demónios.

"Era invulgar haver duas precauções, duas formas de assegurar que aquele esqueleto permanecia na sepultura - o que indica que o medo de que o corpo voltasse à vida era maior", explica Dariusz Poliński., principal autor do estudo publicado na revista científica Journal of Archaeological Science: Reports.

Poliński, docente do Instituto de Arqueologia da Universidade Nicolau Copérnico, em Toruń, na Polónia, e os seus colegas começaram a realizar escavações em 2005, no local de Pień, perto de Dąbrowa Chełmińska. Segundo o investigador, aquele terreno rural foi utilizado como cemitério durante cerca de quatro gerações, no século XVII, tendo sido descobertas 101 sepulturas dessa época.

O cemitério seria provavelmente protestante, uma vez que não foram encontrados quaisquer objetos religiosos, como cruzes e medalhas, característicos das sepulturas católicas. Naquela região, nessa época, comunidades protestantes oriundas da Alemanha e dos Países Baixos, sobretudo luteranos e menonitas, viviam lado a lado com a população polaca, maioritariamente católica. Embora já tenham sido encontrados cadeados em cemitérios judaicos na Polónia, os autores do estudo salientam que o local não apresentava outras características que indicassem tratar-se de uma sepultura judaica.

"Não há dúvida de que eram considerados cadáveres potencialmente perigosos, que poderiam fazer mal aos vivos se não fossem imobilizados desta forma", afirma John Blair, professor emérito de História e Arqueologia Medieval da Universidade de Oxford, referindo-se às mulheres enterradas com foices sobre a garganta. Blair não participou no estudo.

"Há numerosos registos de medidas destinadas a impedir que os mortos fizessem mal aos vivos, em sepulturas de diferentes épocas e de várias partes do mundo, embora esta prática específica pareça ser característica da Polónia do início da Idade Moderna", explica Blair, autor de "Killing the Dead: Vampire Epidemics from Mesopotamia to the New World".

Sepulturas "invulgares"

Várias dezenas de sepulturas naquele terreno apresentavam corpos dispostos em posições ou acompanhados de objetos que o estudo descreve como invulgares ou atípicos. Entre os casos identificados estavam uma criança enterrada de barriga para baixo, um esqueleto colocado numa posição semelhante à de uma crucificação, sepulturas com pedras dispostas à volta do crânio, como se servissem para impedir que os mortos mordessem ou se movessem, e outras sepulturas com foices e cadeados.

A localização do cemitério de Pień, afastado da aldeia, numa encosta junto a uma encruzilhada e longe de qualquer igreja ou capela, sugere que o terreno poderá ter servido como "local onde eram sepultadas pessoas rejeitadas pela sociedade, independentemente da sua condição social, e que provavelmente continuavam a ser temidas mesmo depois da morte", escrevem os investigadores.

"Estes cemitérios não eram, regra geral, mencionados nos documentos da época, o que explica a falta de informação sobre eles. Nesses locais eram enterradas pessoas que se tinham suicidado, hereges, forasteiros sem direitos de cidadania municipal, pessoas sem residência fixa e indivíduos que tinham morrido em circunstâncias trágicas", acrescenta a equipa.

O cadeado triangular foi preso ao dedo grande de um dos pés de Zosia quando a jovem foi enterrada, embora tenha sido encontrado aberto. A foice, cujo cabo era feito de madeira de bétula, amieiro ou ácer, só foi colocada sobre o pescoço mais tarde, numa posição que permitiria decapitá-la caso tentasse regressar dos mortos.

O estudo levanta a hipótese de que a foice tenha sido colocada sobre o corpo antes de este se decompor completamente, uma vez que nenhuma das articulações estava separada ou deslocada, como os arqueólogos esperariam encontrar se a sepultura tivesse sido remexida depois de o corpo estar reduzido a esqueleto. Segundo os autores, esta descoberta sugere que ainda existiam tecidos moles a manter o esqueleto na sua posição.

Os investigadores descobriram também que, após a morte, tinha sido introduzido na boca ou no nariz de Zosia um objeto que continha cobre e ouro. Segundo o estudo, é pouco provável que se tratasse de uma moeda, uma vez que as proporções de cobre e ouro não correspondiam às encontradas em ligas metálicas históricas. O objeto deixou uma mancha esverdeada no palato da jovem. A colocação de um objeto deste tipo no corpo poderia também constituir "uma prática destinada a proteger contra os demónios", escrevem os autores do estudo.

Seria Zosia uma pessoa de fora?

Para responder a esta pergunta, os investigadores analisaram o ADN de Zosia e as assinaturas químicas, ou isotópicas, de diferentes elementos presentes nos seus restos mortais, como o oxigénio e o estrôncio. No entanto, os resultados não foram conclusivos.

Os investigadores acreditam que Zosia terá passado a infância naquela região, uma vez que as assinaturas químicas presentes nos seus tecidos dentários indicavam que consumia alimentos e água de origem local e eram semelhantes às encontradas nos restos mortais de outras pessoas enterradas no cemitério. No entanto, essas assinaturas isotópicas não eram particularmente distintivas. Segundo os autores do estudo, quem tivesse crescido noutras regiões da Europa Central poderia apresentar padrões semelhantes.

A análise do ADN mitocondrial de Zosia, que permitiu aos investigadores estudar a sua ascendência materna, sugere que a jovem poderá ter tido familiares próximas - talvez a mãe, a avó ou a bisavó - cuja ascendência estaria ligada a populações escandinavas. No entanto, segundo os investigadores, esta era apenas uma de várias origens geográficas possíveis para a sua linhagem. A equipa não conseguiu recuperar ADN nuclear, que teria permitido obter informações mais detalhadas.

Reconstituição da possível aparência de Zosia

O geneticista Shai Carmi, professor associado da Universidade Hebraica de Jerusalém, colaborou numa análise ainda não publicada de outra sepultura do mesmo cemitério, mas não participou na investigação sobre Zosia. "Os autores analisaram apenas o ADN mitocondrial, que corresponde a uma parte muito pequena do genoma, herdada exclusivamente da mãe", explica.

"Por ser tão pequena, esta parte do genoma fornece pouca informação sobre a ascendência, exceto em casos raros. Neste caso, também não foi particularmente esclarecedora, uma vez que esta sequência de ADN mitocondrial está presente em toda a Europa", acrescenta.

A equipa de investigação está mais segura de que Zosia, que tinha entre 17 e 19 anos quando morreu, pertencia a uma família abastada. Vestígios de um tecido de seda encontrados perto do crânio da jovem, que poderá ter servido para adornar um chapéu ou uma touca, continham fios metálicos de ouro e prata puros. A título de comparação, segundo o estudo, as vestes funerárias do rei Sigismundo III Vasa e da rainha Constança de Habsburgo, sepultados aproximadamente na mesma época em Cracóvia, no sul da Polónia, não contêm um único fio de ouro puro.

Os cientistas analisaram fios encontrados na sepultura que poderão ter feito parte dos adornos de um chapéu ou de uma touca

Exames anteriores ao esqueleto de Zosia tinham sugerido que a jovem poderia ter um hemangioma - um tumor vascular - no esterno, afirma Poliński. Esta condição poderá ter provocado dores e causado uma deformação ou inchaço no peito. No entanto, segundo o estudo mais recente, os restos mortais não apresentavam sinais de traumatismos ou alterações patológicas que pudessem ter causado a morte.

As investigações prosseguem e Poliński afirma que novas análises às amostras de ADN poderão ajudar os investigadores a descobrir o que causou a morte da jovem, embora possa demorar mais tempo a perceber exatamente por que razão Zosia despertava tanto medo.

Segundo Poliński, é provável que Zosia tivesse sido responsabilizada por desgraças como doenças e períodos de fome, que afetavam frequentemente a região no século XVII e que, por vezes, as populações atribuíam à ação sobrenatural dos mortos. As sepulturas consideradas atípicas eram relativamente comuns na Polónia e em muitas regiões da Europa nessa época e, embora a palavra "vampiro" só tenha começado a ser amplamente utilizada no século XVIII, ficaram posteriormente conhecidas como "sepulturas de vampiros".

Martyn Rady, professor emérito de História da Europa Central na University College London, que não participou no estudo, concorda que a sepultura de Zosia é um exemplo de uma prática funerária atípica.

"Na época, os habitantes locais acreditavam que a mulher poderia regressar dos mortos, pelo que escolheram dois métodos para o impedir: um cadeado e uma foice", afirma.

Cadeado triangular preso ao dedo grande do pé esquerdo de Zosia

"Outros métodos utilizados noutras regiões da Europa Central incluíam trespassar o corpo com uma estaca, decapitá-lo, colocar espinhos sobre o cadáver ou simplesmente incinerá-lo", acrescenta.

Talvez seja apropriado que uma mulher tão demonizada não revele facilmente os seus segredos. A equipa pretende analisar com maior detalhe muitas outras sepulturas encontradas no mesmo local, para tentar perceber por que razão aqueles que enterraram Zosia tomaram medidas tão extraordinárias para impedir que saísse da sepultura.

Fonte: CNN Portugal, 17 de outubro de 2026

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