França: o que significa o slogan estudantil “Bismillah, c’est les ténèbres”
Perry Mason
(1957-1966) – Connie Cezon, William Hopper
Tem sido rabiscado em cartazes de cartão à porta de escolas
bloqueadas, partilhado em vídeos de paródia dezenas de milhares de vezes e
repetido por Greta Thunberg. Em poucas semanas, “Bismillah, c’est les ténèbres”
tornou-se o slogan não oficial dos protestos dos liceus em França.
Literalmente, a frase significa muito pouco, e esse é
precisamente o ponto.
O que significa “Bismillah, c’est les ténèbres”?
“Bismillah” é árabe para “em nome de Deus”. Os muçulmanos
dizem-no tradicionalmente antes de começar uma tarefa e, na gíria francesa do
dia a dia, pode significar algo mais próximo de “vamos a isto”.
“C’est les ténèbres” traduz-se literalmente por “é a
escuridão”. Entre os jovens, é gíria para descrever uma situação catastrófica
ou muito sombria.
Juntas, as duas expressões não fazem sentido: “Em nome de
Deus, é a escuridão”. Os alunos dizem que foi precisamente por isso que a frase
pegou: estão a gozar com alguém que tenta, sem sucesso, soar como eles.
De onde surgiu o slogan?
A expressão surgiu numa captura de ecrã de uma conversa no
Snapchat que começou a circular no início de outubro, numa altura em que os
alunos usavam a aplicação para organizar bloqueios às escolas.
Na mensagem, um utilizador chamado “Mamadou” pedia para
entrar num grupo: “Olá, em nome de Deus, é a escuridão. Quando é o bloqueio,
wallah, mano?” (Salut! Bismallah c'est les ténèbres. C'est quand le blocus wallah mon frangin. On va
tout casser. Mets moi dans le groupe blocus Aichek).
A mensagem vinha acompanhada de emojis da bandeira argelina.
Outras capturas de ecrã mostravam contas semelhantes a
perguntar aos estudantes onde iriam ocorrer os bloqueios e quem vendia
fogo-de-artifício e granadas de fumo.
Para muitos alunos, a mistura desajeitada de árabe, calão de
rua e bandeiras nacionais denunciava o truque. Concluíram que as mensagens tinham sido
escritas por agentes da polícia a fazerem-se passar por adolescentes para se
infiltrarem em grupos privados de protesto.
A polícia infiltrou mesmo grupos de estudantes no
Snapchat?
Nada disso foi comprovado. Nem a polícia nem o ministério do
Interior em França comentaram as capturas de ecrã e ninguém verificou de forma
independente quem estava por detrás das contas.
Alguns internautas afirmaram ter localizado as contas em
zonas próximas de esquadras de polícia, mas essas alegações não foram
confirmadas. Algumas das capturas de ecrã em circulação poderão elas próprias
ser falsificações ou paródias.
Porque é que os estudantes franceses estão a protestar?
O movimento começou em Créteil, a sudeste de Paris, a 18 de setembro e espalhou-se rapidamente por todo o país. Um conjunto de reivindicações dos estudantes está no centro do movimento, incluindo dias letivos demasiado longos, salas de aula sobrelotadas, escolas degradadas e faltas de professores.
Muitos defendem que estes problemas atingem sobretudo os
subúrbios operários e as comunidades minoritárias. Só a 2 de outubro, cerca de
400 escolas foram encerradas devido a bloqueios.
Os protestos estudantis juntaram-se às manifestações
nacionais contra o custo de vida de sábado, 17 de outubro, que terminaram em
alguns dos piores motins e saques que França viu em anos.
O slogan já se espalhou para lá de França?
Segundo a agência noticiosa italiana ANSA, a ativista sueca
Greta Thunberg usou a expressão durante uma visita, a 13 de outubro, a
estudantes em greve em Seine-Saint-Denis, a norte de Paris.
A 9 de outubro, a frase surgiu em cartazes de uma
manifestação sindical em Bruxelas contra os cortes orçamentais do governo
belga. Ali, foi usada mais como gesto de solidariedade com os estudantes
franceses do que como referência às alegadas infiltrações.
Em Itália, a ANSA noticiou que a expressão apareceu em
manifestações estudantis em Bolonha, a 15 de outubro. Voltou a ouvir-se em
Milão no fim de semana de 17 e 18 de outubro, quando os protestos na Piazza del
Duomo também descambaram em saques, e alunos de uma escola francesa em Berlim
foram fotografados a segurar uma faixa com o slogan.
Fonte: Euronews, 19 de outubro de 2026
Caras & Bocas (2009 – 2010) - Isabelle Drummond

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