Mark Rossini, o agente do FBI que poderia ter evitado o 11 de Setembro: “Acabou com a minha vida para sempre”

Tropiques criminels (2019) - Meylie Vignaud, Guillaume Gabriel, Sonia Rolland

Havia um documento fundamental sobre dois terroristas no seu gabinete em Alec Station. Por que ninguém fez nada? Uma entrevista sobre segredos, intrigas, diplomacia e teorias da conspiração

Os EUA poderiam ter evitado o atentado terrorista às Torres Gémeas e ao Pentágono alguns meses antes? No dia 5 de janeiro de 2000, Mark Rossini e Doug Miller, agentes do FBI, receberam um telegrama dos serviços secretos comunicando que duas pessoas com possíveis intenções terroristas tinham recebido vistos de entrada no país. Avisaram a sua supervisora, Michael Anne Cassey, mas nada foi feito. Al-Hazmi e al-Mihdhar foram os dois primeiros dos 19 sequestradores do 11 de Setembro a entrar nos EUA em poucos dias.

“Se pudesse viajar no tempo, regressaria àquele 5 de janeiro de 2000, faria uma cópia do telegrama e levá-lo-ia pessoalmente à sede do FBI. Ter-me-iam expulsado da agência, mas não me importava. Aquilo acabou com a minha vida para sempre”, diz Mark Rossini, 25 anos mais tarde.

Na sua conversa com a National Geographic, está acompanhado por Álvaro Soto, um jornalista espanhol que acaba de publicar Agente Rossini: la Historia del Hombre Que Pudo Haber Evitado el 11-S, um fascinante relato histórico sobre o excêntrico agente que, durante quatro anos lhe confiou os seus segredos a partir da sua nova residência, em Madrid. “Eu escrevo como um polícia, qualquer coisa que escreva é muito aborrecida”, diz Rossini, rindo-se.

No entanto, a história da sua vida é tudo menos aborrecida. Juntou-se ao FBI em 1991, onde alcançou o cargo máximo de agente (15), desempenhando-o até ser expulso em 2007. Entre outras missões, investigou os atentados contra as embaixadas norte-americanas na Tanzânia e no Quénia e desempenhou o papel de ligação de segurança nacional junto de Espanha na luta contra o terrorismo. O livro também narra outras grandes histórias, dignas de um romance policial. No plano pessoal, foi indultado por Donald Trump em 2020 após alegações de suborno em Porto Rico, teve um romance conflituoso com a atriz Linda Fiorentino

e participou como ator em filmes kosovares.

No entanto, o momento que marcou a sua vida foi quando que teve nas mãos os documentos que poderiam ter evitado o atentado terrorista mais impactante da história. “Penso no 11 de Setembro todos os dias”, diz. Como chegou Rossini àquele ponto? Após sete anos no FBI, em 1998 foi promovido para a Alec Station, a unidade antiterrorista que acompanhava Osama bin Laden e as suas redes de contacto. Para Rossini, foi um reconhecimento na sua carreira de detetive, com uma particularidade: embora pertencendo ao FBI, tinha de responder à CIA, duas agências historicamente rivais.

Embora as suas funções sejam teoricamente complementares – a CIA recolhe informação secreta do exterior e o FBI atua na segurança nacional dentro dos EUA – existem, na prática, critérios divergentes que provocam tensão entre ambas. Foi o que aconteceu quando leu o telegrama que dizia que Al-Hazmi

e al-Mihdhar,

participantes de uma conferência da Al Qaeda em Kuala Lumpur, tinham recebido vistos para entrar nos EUA. No livro, Soto descreve a CIA como um organismo de “pensamento recolector” de informação, enquanto o FBI é um caçador.

“Partilhar informação foi um choque entre as duas agências. Existia um muro entre ambas. Havia três pessoas do FBI em Alec Station. Agora há cem no National Counterterrorism Center para analisar a mesma informação. Por isso, não se consegue esconder nada”, disse Rossini à National Geographic.

Rossini propõe três hipóteses para a CIA não lhe ter permitido partilhar a informação com o FBI: a CIA queria recrutar os potenciais terroristas; queria seguir os seus passos em operações seguintes; ou não queria arruinar as relações diplomáticas com a Arábia Saudita. Segundo Rossini, se o FBI, com o seu “pensamento recolector”, detivesse os cidadãos sauditas Al-Hazmi e al-Mihdhar, isso poderia desencadear uma crise grave para a Casa Branca.

“Havia milhares de estudantes da Arábia Saudita no meu país, sobretudo para estudar geologia e exploração de petróleo. Não era uma questão de burocracia, mas de política e de não enfrentar a família real”, analisa Rossini.

O seu testemunho foi um dos vários recursos utilizados na elaboração do relatório final da Comissão 11 de Setembro, o mais importante dos relatórios redigidos pelo governo federal após os atentados. Não permitia comprovar a ligação do governo saudita aos atentados, mas mencionava que não foram impedidos devido à má prática das agências de segurança nacional. Rossini sabia isso melhor do que ninguém.

“Acho que não era esse o desejo do rei da Arábia Saudita, mas ele tem alguma responsabilidade no facto de não terem controlado o ministério dos Assuntos Islâmicos, que tinha carta branca para impulsionar uma interpretação radical do Islão no mundo. O acordo era: não nos chateiem e nós não vos chateamos. E quando fazemos um pacto com o diabo, é isto que acontece”, explica.

Soto realça que a presença de elementos radicais dentro do governo saudita não é uma mera teoria de Rossini, pois verificou-a em vários documentos desclassificados nos anos seguintes.

“Eu próprio não conheço muitas teorias da conspiração porque não me interessam. A história é a história. Tudo o resto é sujar o campo de jogo e é prejudicial para a verdade. Tenho muita pena porque, quando o leio [o relatório], vejo que não faz justiça à memória das pessoas que morreram”, explica Rossini, que perdeu o seu mentor, John O’Neill, nas Torres Gémeas.

A sua postura é que, apesar de tudo, atualmente os EUA devem conservar uma boa ligação à Arábia Saudita: “É muito, muito importante manter a relação. Estão no top do Islão porque têm Medina, um lugar sagrado, e protegem-na. Temos de pensar a longo prazo e no mundo que queremos. Estar perto deles é uma coisa correta. Com quem vamos negociar? Com o Irão, um país teocrático cujos líderes querem eliminar cristãos e judeus? É impossível”, afirma.

O livro de Soto prossegue contando a história do agente que se instala em Espanha, trabalha como detetive privado, faz amigos em Málaga, colabora com a polícia local e conduz diferentes investigações. Falando um castelhano fluido, que lhe permite exprimir-se com toda a naturalidade, poucos seriam capazes de o reconhecer nas ruas de Madrid. Mas ali está o ex-agente do FBI que todos os dias pensa no 11 de Setembro: “Ninguém sabia da magnitude do que os terroristas iam fazer. Mas não interessa se iam ao Disney World porque vinham da sua casa no Iémen, tinham estado numa conferência terrorista em Kuala Lumpur e a CIA tinha fotografias do passaporte com o qual mostravam o visto para entrar nos EUA. Quando chegassem, iriam persegui-los e ver com quem se encontravam. Mas a informação não chegou a ser partilhada e não podemos escolher o que dizer ou não dizer. Depois chegam as pessoas perigosas”, conclui Rossini.

Fonte: National Geographic, 22 de outubro de 2026

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