Quem é Bally Bagayoko, o autarca que enfrentou a polícia para proteger os jovens nos protestos em França?
Uma
imagem tornou Bally Bagayoko conhecido muito para lá dos arredores de Paris.
Mas quem é o autarca que divide opiniões, entre elogios pela defesa dos jovens
e acusações de incitamento à violência?
De fato e gravata, de braços abertos diante de uma linha de
agentes de choque, grita para a polícia parar. As imagens de Bally Bagayoko,
presidente da Câmara de Saint-Denis, nos arredores de Paris, a interpor-se
entre as forças de segurança e os jovens manifestantes tornaram-se virais e
projetaram-no para o centro dos protestos estudantis em França.
O The New York Times chamou-lhe a “cara dos protestos
da juventude francesa”. Mas o próprio autarca recusa o protagonismo.
“É a juventude que deve permanecer como o ícone e o símbolo importante desta revolução”, explicou o autarca.
Os manifestantes “podiam ser os meus filhos”
Bally Bagayoko não 'caiu de paraquedas' nos protestos nem
apareceu como um político desconhecido dos bairros onde começaram as
mobilizações. Filho de pais originários do Mali, cresceu num bairro social de
Saint-Denis e é o segundo de oito irmãos. Tem quatro filhos e construiu um
percurso político de mais de duas décadas.
Militante da França Insubmissa, o partido de esquerda
radical liderado por Jean-Luc Mélenchon, foi eleito presidente da Câmara de
Saint-Denis em março deste ano, à primeira volta, com 50,77% dos votos.
Antes de chegar à presidência da autarquia, já tinha
desempenhado funções municipais e departamentais, além de trabalhar na empresa
de transportes públicos de Paris, a RATP.
Foi a ligação à cidade e aos seus habitantes que o levou a
acompanhar os estudantes desde os primeiros dias de protesto. A mobilização
começou com reivindicações por melhores condições nas escolas, mais professores
e instalações adequadas, mas acabou por alargar-se a outras formas de
descontentamento social.
“Os alunos do ensino secundário que estavam na rua podiam
ser os meus filhos”, afirmou à Reuters. “É a minha responsabilidade estar ao
lado deles”.
De autarca a protagonista involuntário dos protestos em
França
A imagem que atravessou fronteiras foi captada durante uma
manifestação em Paris, quando os agentes de choque avançaram contra um grupo de
jovens. Bagayoko colocou-se entre os dois lados e pediu que a polícia parasse.
O autarca explicou à Reuters que muito dos estudantes não
tinham demonstrado qualquer comportamento agressivo contra os agentes. Ainda
assim, a polícia acabou por lançar gás lacrimogéneo sobre o grupo, atingindo
também Bagayoko.
No final das contas, a atitude dividiu opiniões. Para os apoiantes, o presidente da Câmara tornou-se um símbolo de proteção dos jovens e de contestação à violência policial. Outros políticos, sobretudo à direita, acusaram-no de incentivar a violência.
A polémica intensificou-se depois de Bagayoko ter afirmado
que “a violência, numa dada altura, pode ser legítima”, acrescentando, contudo,
que “sempre que se pode evitar, é melhor”. As declarações motivaram uma queixa
por alegado incitamento à violência.
Da escola ao racismo, as desigualdades no centro do discurso
O apoio aos estudantes está ligado a uma crítica mais ampla
às desigualdades sociais em França. Para o autarca, as falhas do sistema
educativo penalizam sobretudo as crianças de meios desfavorecidos.
“É uma forma de violência sistémica oferecer um ensino de
qualidade inferior - falta de professores, salas de aulas sobrelotadas,
infraestruturas degradadas - a crianças de origem já desfavorecidas”, afirmou,
defendendo que essa realidade já compromete a promessa de igualdade.
A posição não é novidade no percurso político. Em
Saint-Denis, uma das primeiras medidas anunciadas após a eleição foi a
distribuição gratuita de manuais escolares. Além disso, defende ainda um maior
investimento público na educação e uma revisão da doutrina de intervenção das
forças de segurança, sobretudo quando estão perante menores.
Mamdani francês e a 'faca de dois gumes'
Nas redes sociais, Bally Bagayoko tem sido apelidado de
"French Mamdani", numa referência a Zohran Mamdani, presidente da
Câmara de Nova Iorque. A comparação aproxima os dois autarcas pelo discurso
político progressista e pela defesa de políticas centradas nas desigualdades
sociais, embora tenham percursos e contextos políticos distintos.
E como uma verdadeira 'faca de dois gumes' a notoriedade
conquistada nas manifestações trouxe consigo um escrutínio extra ao percurso do
autarca. Além da queixa por alegado incitamento à violência, está a ser
analisada uma suspeita de acumulação de dois empregos a tempo inteiro, na
Câmara de Saint-Denis e na RATP.
Ao mesmo tempo, os protestos que ajudou a amplificar têm
sido acompanhados por episódios de violência, pilhagens e ataques a edifícios
públicos.
Fonte: SIC Notícias, 20 de
outubro de 2026


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