Rússia comete erro de cálculo ao deixar a Europa de lado nas negociações com os EUA, diz Kallas à Euronews
Perry Mason
(1957-1966) – Marian Collier
Moscovo não conseguirá forçar a Ucrânia a render-se através
de um acordo com Washington, uma vez que a Europa continuará a apoiar Kiev,
afirmou a chefe da política externa da UE, Kaja Kallas, numa
entrevista exclusiva à Euronews.
Kallas, alta representante da UE para os Negócios
Estrangeiros e a Política de Segurança, afirmou que a Rússia cometeu um erro de
cálculo desde a cimeira de Anchorage do ano passado ao tentar forçar a Ucrânia
a ceder através de um acordo com os EUA.
"Os russos querem discutir e negociar com os EUA, para
que estes lhes concedam o que pretendem. Mas nós temos os nossos próprios
pedidos a fazer à Rússia", afirmou. "A
mensagem é que é preciso dialogar com os europeus."
Questionada sobre o acordo relativo ao gasóleo e o
cessar-fogo energético anunciado pelo presidente dos EUA, Donald Trump, ao
abrigo do qual a Rússia forneceria 300 000 toneladas de gasóleo aos mercados
dos EUA e globais, Kallas afirmou que o acordo constituía um claro presente
para o presidente russo, Vladimir Putin.
"A questão é: o que é que ele deu em troca? O que vemos
é que, na verdade, ele está a intensificar os ataques contra civis e
infraestruturas civis. O cessar-fogo que também foi anunciado não está
realmente a funcionar do lado russo", afirmou ainda.
O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, disse ao Financial
Times que Kiev iria retomar os ataques a refinarias russas, apesar da
pressão dos EUA, incluindo interrupções na partilha de informações de
inteligência e um sinal da Starlink enfraquecido durante ataques russos
intensos.
Para Kallas, a questão central é que a Rússia tem de pôr fim
à sua guerra de agressão, o que
também poria fim aos ataques da Ucrânia às refinarias russas.
"Se olharmos para o panorama geral, a maior parte do
financiamento desta guerra provém do petróleo. E é por isso que a Ucrânia
também as tem como alvo [as refinarias], enquanto a Rússia tem como alvo as
infraestruturas energéticas no interior da Ucrânia, para causar o máximo de sofrimento possível ao povo ucraniano no inverno que se
aproxima", afirmou.
Kallas reiterou que a pressão
internacional deve recair sobre o agressor
para que ponha fim à guerra, e não sobre a vítima para que se renda —
uma posição que, segundo considera, a Europa tem mantido de forma consistente.
"Se fizéssemos isto em conjunto com os EUA, a mensagem
para a Rússia seria clara: ponham fim a esta guerra e todas as vossas
preocupações no que diz respeito às refinarias de petróleo e afins também
desaparecerão", afirmou.
Questionada sobre se uma vaga de eleições em países-chave da
UE, incluindo a perspetiva de Marine Le Pen se tornar presidente da França,
sinalizava um enfraquecimento do apoio à Ucrânia, Kallas reconheceu que as
atitudes do público tinham mudado ao longo de quatro anos de guerra.
No entanto, afirmou que a Europa precisava de apresentar uma
frente unida para que a sua política externa fosse eficaz.
"É precisamente isso que os russos estão a tentar
fazer: que os europeus se cansem e, depois, eles consigam o que querem. E o que quero sublinhar é que, nessa altura, a fome deles
irá aumentar", afirmou Kallas.
Fonte: Euronews, 15 de outubro de 2026

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