Caso Football Leaks: Ministério Público recusa partilhar provas recolhidas na PJ
Perry Mason (1957-1966)
Procurador
diz que revelação do que foi apreendido nas buscas poderia "acarretar
prejuízo para investigação" sobre uma alegada escuta ilegal
O procurador que está a investigar uma alegada escuta ilegal
no caso Football Leaks recusa-se a partilhar o resultado das buscas à Polícia
Judiciária, em setembro deste ano. O pedido tinha sido feito pelo tribunal que
está a julgar a inspetora da PJ Aida Freitas,
mas o Ministério Público alegou que o conhecimento público dos dados
apreendidos poderia "acarretar um prejuízo" para a investigação.
O juiz que está a julgar a
inspetora Aida Freitas pelo crime de falsas declarações — por esta ter declarado no julgamento do hacker
Rui Pinto não ter ouvido uma conversa que surgiu relatada num auto — pediu, em
meados deste mês, praticamente todos os elementos recolhidos nas buscas à
Judiciária, com a justificação que estes elementos poderiam ter interesse para
o julgamento de Aida Freitas.
Isto porque, durante as sessões, surgiram
suspeitas de que a Polícia
Judiciária gravou, sem autorização judicial, uma conversa entre o advogado
Aníbal Pinto e os representantes do fundo Doyen, em 2015, a qual acabaria por
ser resumida num Auto de Diligência Externa. Em julho, David Freitas, também
inspetor da PJ e marido de Aida Freitas, fez uma denúncia à Procuradoria-geral,
denunciando factos que teve conhecimento, os quais estavam suportados por
documentos.
A operação em questão realizou-se a 21 de outubro de 2015,
na área de serviço da autoestrada Lisboa-Cascais (A5). Segundo os autos do
processo “Football Leaks” — no qual Aníbal Pinto e Rui Pinto foram condenados
por tentativa de extorsão — a PJ, previamente
informada, montou um dispositivo de vigilância a um encontro que
iria ocorrer entre o advogado Aníbal Pinto e um representante do fundo de
investimento Doyen, Nélio Lucas, e o seu advogado, Pedro Henriques.
O teor da conversa seria, posteriormente, reduzido a escrito
num designado Relato de Diligência Externa (RDE). No documento, assinado pelos
inspetores Aida Freitas e Hugo Monteiro, descreveu-se o teor da conversa:
Aníbal Pinto, como advogado de Rui Pinto, teria pedido entre 500 mil e um
milhão de euros para o seu cliente devolver os documentos retirados dos
computadores da Doyen; e o mesmo advogado terá feito uma descrição do seu
cliente, à data apenas conhecido como “Artem Lobuzov”.
No julgamento do caso “Football Leaks”, o advogado negou sempre a versão apresentada pela PJ, pedindo até para a gravação da conversa ser apresentada em tribunal. E aqui começou o problema: vários inspetores da PJ — José Amador, Hugo Monteiro — testemunharam não ter existido gravação e que o conteúdo do auto foi elaborado a partir do que dois inspetores ouviram no interior da área de serviço.
Foi após a denúncia de David Freitas que o Ministério
Público abriu um inquérito, no qual foram realizadas buscas à Polícia
Judiciária. Na resposta ao juiz que está a julgar Aida Freitas, o procurador
Carlos Rodrigues, além do prejuízo para a investigação se as provas fossem
conhecidas, refere ainda a possibilidade de realização de "diligências
futuras", as quais não devem ser do conhecimento público.
Em outubro, o juiz André Santos decidiu adiar a audição de
cinco inspetores da Polícia Judiciária que deveriam prestar declarações sobre
uma alegada escuta ilegal realizada no âmbito do caso Football Leaks, que levou
à condenação do ‘hacker’ Rui Pinto. O principal investigador deste último caso,
o inspetor José Amador, invocou, entretanto, a sua qualidade de arguido num
processo, pedindo para não prestar declarações.
Fonte: Now, 29 de outubro
de 2026

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