Jennifer não existe, mas faz ligações para atacar um candidato nos EUA: a IA entrou na campanha
Perry Mason
(1957-1966) – Regina Gleason, William Hopper
A Lone Star Liberty, um super PAC pró-Ken Paxton que recebeu
10 milhões de dólares de Elon Musk, está a utilizar uma campanha de chamadas
automáticas baseada em IA no Texas para atacar o candidato democrata ao Senado
James Talarico, por alegadamente ter aceitado dinheiro de grupos de
"interesses especiais relacionados com centros de dados", de acordo
com gravações de áudio analisadas pela CNN.
As chamadas, que ainda não tinham sido noticiadas,
apresentam uma interlocutora gerada por IA chamada "Jennifer", que se
identifica como colaboradora virtual da Lone Star Liberty. Ao contrário de uma
chamada automática pré-gravada tradicional, o sistema foi concebido para
interagir com os eleitores em tempo real, perguntando em quem votaram e
respondendo às suas respostas.
"Olá, é o Julio? Olá. Chamo-me Jennifer e sou uma
colaboradora virtual da Lone Star Liberty a ligar para apoiar o republicano Ken
Paxton", diz a voz gerada por IA numa chamada analisada pela CNN.
A voz gerada por IA transmite argumentos de ataque
republicanos contra Talarico – incluindo a alegação, numa chamada, de que ele
"recebeu 11 milhões de dólares de grupos de interesse ligados a centros de
dados".
Um porta-voz do PAC afirmou que o valor se baseava numa
reportagem do Daily Caller que detalhava doações a grupos políticos
pró-Talarico por parte de indivíduos com ligações à indústria dos centros de
dados. Entre esses doadores encontrava-se o multimilionário da tecnologia Reid
Hoffman, que tem defendido a expansão dos centros de dados apesar da oposição
generalizada do público e que contribuiu com 10 milhões de dólares para um
super PAC que apoia Talarico neste ciclo eleitoral.
A campanha de chamadas automáticas apresenta uma ironia
marcante: Musk, a pessoa mais rica do mundo e CEO de uma das principais
empresas de IA, está a gastar centenas de milhões da sua própria fortuna para
apoiar campanhas políticas republicanas e super PACs. Neste caso, o super PAC
do Texas está a utilizar uma ferramenta de IA para atacar o facto de receber
dinheiro precisamente dos centros de dados que tornam esse tipo de chamadas
possível.
Campanhas que apostam na IA
As chamadas automáticas com IA não se limitam às campanhas
políticas — outros setores, como os seguros e as finanças, estão a adotá-las —,
mas estas chamadas também oferecem uma visão preliminar de como as campanhas
podem utilizar chamadas com IA conversacional para exercer persuasão política
numa escala potencialmente maciça — uma forma emergente de divulgação política
que é difícil de acompanhar pelo público, em parte devido à ausência de uma
base de dados centralizada.
O KFile da CNN identificou as chamadas automáticas através
do Nomorobo, uma aplicação que bloqueia chamadas automáticas e mensagens de
texto, e obteve gravações das chamadas. As chamadas foram detetadas pela
primeira vez a 23 de outubro, originando-se de dezenas de números de telefone e
atingindo um número relativamente pequeno de linhas fixas, de acordo com o
Nomorobo.
Os centros de dados tornaram-se um dos alvos políticos mais
importantes do ciclo eleitoral de 2026, suscitando oposição por parte de todos
os partidos devido ao seu consumo de energia, custos e rápida expansão. Uma
sondagem recente da CNN revelou que mais de oito em cada dez americanos
manifestaram muito mais preocupação do que entusiasmo em relação ao rápido
desenvolvimento da inteligência artificial.
No entanto, mesmo com os eleitores a manifestarem receios,
as campanhas políticas estão a adotar anúncios políticos na televisão e
digitais gerados por IA, bem como uma nova tendência de chamadas automáticas
conversacionais alimentadas por IA.
Numa declaração à CNN, Gregg Keller, porta-voz da Lone Star
Liberty, defendeu as táticas de campanha do grupo, afirmando que este estava a
"utilizar todas as ferramentas disponíveis" para informar os
eleitores do Texas sobre as suas críticas a Talarico.
Um porta-voz da campanha de Talarico disse à CNN numa declaração: "Ken Paxton não consegue que pessoas reais façam chamadas por ele, por isso Elon Musk está a ativar os seus centros de dados para criar os únicos voluntários dispostos a espalhar mentiras para a sua campanha: robôs de IA".
Questionado sobre a reportagem em Dallas na quinta-feira à
noite por Ed Lavendera, da CNN, Talarico afirmou: "É bastante irónico que
estejam a usar bots de IA para me atacar por causa dos centros de dados,
quando, na realidade, sou o único candidato nesta corrida que tem um plano para
tomar medidas severas contra as empresas de centros de dados".
Nate Persily, professor da Faculdade de Direito de Stanford
e codiretor da Stanford Law AI Initiative, disse à CNN num e-mail que se mostra
cético quanto ao impacto das chamadas automáticas de IA nas campanhas
eleitorais, uma vez que as pessoas raramente atendem o telefone e provavelmente
desligariam se ouvissem um "funcionário virtual".
"A maioria das pessoas considera as chamadas
automáticas irritantes — quer sejam as tradicionais gravadas, quer as atuais,
geradas por IA", afirmou Persily. "Devemos separar as alegações
falsas ou polarizadoras feitas por uma comunicação da tecnologia por trás dessa
comunicação. Compreendo que a IA seja a grande novidade desta campanha, mas a
manipulação é tão antiga quanto a política".
A questão central em relação à tecnologia de chamadas
automáticas alimentadas por IA é "se é mais barata e mais eficaz na
manipulação e se consegue fazê-lo em grande escala", acrescentou.
As entidades reguladoras ponderam regras mais flexíveis
Embora este tipo de chamadas automáticas baseadas em IA se
limite, de momento, geralmente aos telefones fixos das pessoas, a sua
utilização poderá tornar-se muito mais comum, dependendo da decisão da Comissão
Federal de Comunicações (FCC) relativamente a uma petição que se encontra
atualmente em apreciação.
Atualmente, a legislação federal proíbe a maioria das
chamadas automáticas para telemóveis, a menos que o autor da chamada tenha
obtido consentimento prévio. A FCC está a ponderar se deve flexibilizar as suas
regras relativas às chamadas automáticas de caráter político — uma alteração
solicitada pelo grupo conservador Club for Growth que poderia permitir chamadas
não solicitadas em grande escala, utilizando vozes artificiais ou pré-gravadas,
para chegar não só a linhas fixas, mas também a telemóveis, sem consentimento
prévio.
Os principais democratas e grupos de defesa dos direitos dos
consumidores opõem-se à petição. A FCC poderá pronunciar-se até ao final de
outubro. O debate surge mais de dois anos depois de a FCC ter declarado
ilegais, ao abrigo da legislação federal em vigor, as chamadas automáticas que
utilizam IA para clonar a voz de alguém, na sequência de uma chamada que se fez
passar pelo presidente Joe Biden e instou os eleitores de New Hampshire a não
votarem, tendo sido utilizada nas primárias de 2024.
As gravações analisadas pela CNN mostram tanto o potencial
como os limites da tecnologia. O interlocutor gerado por IA consegue reagir ao
destinatário, mas também apresenta falhas quando interrompido — parando,
reiniciando e repetindo perguntas ou argumentos de campanha. A Nomorobo removeu
as vozes dos destinatários das gravações analisadas pela CNN, a fim de proteger
a sua privacidade.
Se questionado sobre quem apoia na corrida eleitoral, a
colaboradora virtual responde: "Não tenho opiniões pessoais porque sou uma
colaboradora virtual de IA. Posso explicar a posição da campanha, mas a decisão
é sua".
Uma análise da CNN às chamadas automáticas com o termo
"colaboradora virtual" revelou que a mesma voz de IA
"Jennifer" foi utilizada por, pelo menos, dois outros PACs neste
ciclo eleitoral.
O Missouri Promise PAC, criado no início deste ano e
financiado por "dinheiro negro" (fundos provenientes de grupos que
não revelam os seus doadores), utilizou chamadas automáticas com IA este verão
para questionar os eleitores sobre a Emenda 5, que conferiria aos legisladores
autoridade para eliminar gradualmente o imposto sobre o rendimento do estado do
Missouri e substituir essa receita pelo aumento dos impostos sobre vendas. Os
eleitores acabaram por rejeitar a medida em agosto.
A mesma voz de chamadas automáticas geradas por IA lançou
outra campanha em outubro deste ano com a "Voters for Integrity", um
PAC do Missouri criado em agosto para apoiar vários candidatos republicanos a
cargos no estado.
No entanto, as gravações das chamadas automáticas geradas
por IA de nenhum dos dois PACs mencionam centros de dados.
A CNN contactou os tesoureiros de ambos os PACs para obter
comentários, mas não recebeu uma resposta imediata.
Fonte: CNN Portugal, 31 de outubro de 2026

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