Porque estão os frigoríficos dos supermercados ligados à internet? Há 140 sistemas expostos em Portugal
SurrealEstate
- Dani Klupsch, Tim Rozon
Os
recentes ciberataques aos sistemas de refrigeração de supermercados europeus
levantaram uma questão pouco conhecida dos consumidores: porque estão os
frigoríficos e congeladores ligados à internet e como conseguem os hackers
controlar as temperaturas à distância?
Os recentes ciberataques aos sistemas de refrigeração de
supermercados europeus levantaram uma questão pouco conhecida dos consumidores:
porque estão os frigoríficos e congeladores ligados à internet e como conseguem
os hackers controlar as temperaturas à distância? Uma investigação da empresa
de cibersegurança Forescout identificou quase 13
mil sistemas de refrigeração acessíveis online em 99 países e territórios.
Em Portugal, um levantamento realizado para a Executive Digest
identificou 140 interfaces de gestão de
equipamentos de frio expostas à internet, embora isso não signifique
que tenham sido atacadas.
Os ataques informáticos atingiram dezenas de supermercados
na Bélgica e provocaram problemas em estabelecimentos na Suécia, depois de um
incidente semelhante em França, ocorrido em outubro. Segundo a Euronews,
só na Bélgica os prejuízos alimentares rondaram os 100 mil euros, tendo a
imprensa local noticiado temperaturas que chegaram aos 70 graus Celsius. Os
equipamentos afetados pertenciam a estabelecimentos de cadeias como Delhaize,
Carrefour e Spar.
Em Portugal, a Polícia Judiciária está a averiguar se
ocorreu algum incidente malicioso relacionado com estes ataques, numa
investigação desenvolvida em articulação com o Centro Nacional de
Cibersegurança. Até ao momento, as autoridades portuguesas não confirmaram que
algum supermercado nacional tenha sido efetivamente atingido.
A exposição de equipamentos à internet é, contudo, uma
realidade já identificada no país. A questão foi analisada em outubro pela Executive
Digest, que revelou a existência de 140 interfaces de gestão de sistemas de
refrigeração acessíveis online em território português. Mas porque estão estes
equipamentos ligados à rede e que riscos representa essa ligação?
Porque estão os frigoríficos e congeladores ligados à
internet?
Nos grandes supermercados, os sistemas de refrigeração são
normalmente geridos por unidades centrais que controlam a temperatura, os
ciclos de descongelação e os alarmes dos frigoríficos e congeladores instalados
nos estabelecimentos.
A ligação à internet permite
que os técnicos responsáveis pela manutenção acompanhem o funcionamento dos
equipamentos, identifiquem avarias e alterem configurações à distância, sem
necessidade de se deslocarem às lojas sempre que surge um problema.
Uma investigação publicada em outubro pela Forescout
explica que esta funcionalidade está disponível há vários anos e permite
reduzir custos operacionais e acelerar a resolução de falhas.
A Danfoss, um dos principais fornecedores europeus destes
equipamentos, estima que o acesso remoto permita
reduzir entre 15% e 30% as deslocações desnecessárias dos técnicos,
já que determinados problemas podem ser resolvidos remotamente.
A tecnologia facilita também o cumprimento das regras de
segurança alimentar. Os sistemas podem registar automaticamente as temperaturas
dos equipamentos, dispensando verificações manuais que, em alguns
estabelecimentos, teriam de ser realizadas até quatro vezes por dia.
O problema surge quando os controladores ficam diretamente
acessíveis através da internet pública, sem mecanismos de proteção adequados.
Nestas circunstâncias, pessoas não autorizadas podem tentar aceder aos sistemas
que controlam a conservação dos alimentos.
A Forescout alerta ainda para a divisão de
responsabilidades entre as várias entidades envolvidas. A manutenção pode ser
assegurada por uma empresa externa, os equipamentos pertencem ao supermercado e
a ligação à internet é administrada pelos serviços informáticos. Quando não
existe uma definição clara de responsabilidades, algumas vulnerabilidades podem
passar despercebidas.
Quase 13 mil sistemas expostos no mundo. Portugal tem 140
interfaces identificadas
Recorrendo ao Shodan, um motor de pesquisa especializado na
identificação de dispositivos ligados à internet, a Forescout encontrou
12 976 serviços de gestão de refrigeração acessíveis online, distribuídos por 6017
endereços de internet em 99 países e territórios.
A maioria pertencia a duas famílias de equipamentos: os
sistemas XWEB, da Copeland e Dixell, com 7075 serviços identificados, e os
controladores StoreView, da Danfoss, com 4697.
A investigação revelou ainda que 80% dos serviços Danfoss
identificados utilizavam versões de software anteriores à atualização que
corrigiu vulnerabilidades de segurança conhecidas.
Alguns equipamentos apresentam riscos adicionais devido à
sua antiguidade. Um dos controladores analisados
deixou de receber suporte em maio de 2021, o que significa que já
não beneficia de atualizações de segurança.
Em Portugal, um levantamento realizado a 13 de outubro por
Sérgio Silva, CEO da empresa de cibersegurança CYBERS3C, para a Executive
Digest, identificou 140 interfaces de gestão de sistemas de frio Danfoss
diretamente acessíveis através da internet.
O especialista recorreu a bases de dados públicas, sem
interagir com os equipamentos, e concluiu que Portugal surgia na terceira
posição entre 60 países onde foram identificados dispositivos daquela família
de controladores. França liderava com 2898 interfaces, seguida da África do
Sul, com 517, enquanto Espanha apresentava 76.
A análise revelou também que 71 das interfaces portuguesas
não utilizavam HTTPS, um mecanismo de proteção das comunicações através de
encriptação. Outras 129 apresentavam uma interface de geração antiga e 67
mantinham certificados digitais de fábrica.
Estes indicadores justificam uma avaliação de segurança, mas
não demonstram a existência de ataques nem permitem concluir que todos os
sistemas tenham vulnerabilidades exploráveis.
“Não são lojas atacadas: são equipamentos na situação de
risco que o CERT-FR aponta como central, com a interface de gestão aberta para
a Internet, e nada indica que algum tenha sido mexido”, explicou Sérgio Silva à
Executive Digest.
O especialista esclareceu ainda que não foi possível
identificar os proprietários dos equipamentos. Os 140 sistemas não
correspondem, por isso, necessariamente a supermercados, nem representam a
totalidade dos equipamentos de refrigeração expostos no país.
Os endereços identificados foram comunicados ao CERT.PT, a
equipa nacional de resposta a incidentes de cibersegurança, para que os
responsáveis pelas instalações possam ser alertados.
Como conseguem os hackers alterar temperaturas sem entrar
nos supermercados?
Uma das principais conclusões da investigação da Forescout
é que os atacantes não precisam necessariamente de utilizar programas
maliciosos sofisticados para interferir com o funcionamento dos equipamentos.
Depois de conseguirem acesso aos controladores, podem
utilizar as próprias funcionalidades dos sistemas para modificar temperaturas,
ativar ciclos de descongelação ou desativar alarmes.
Estas alterações podem ser difíceis de identificar porque
correspondem a operações normais de gestão e manutenção. Uma modificação
realizada por um atacante pode, por isso, assemelhar-se a uma intervenção
técnica legítima.
O especialista português Sérgio Silva tinha destacado
precisamente esta característica dos ataques ocorridos em França. “Não houve resgate, não houve roubo de dados, não houve
ransomware. Bastou mudar uma temperatura num aparelho que quase ninguém trata
como crítico”, explicou à Executive Digest.
Ao contrário dos ciberataques mais conhecidos,
frequentemente associados ao roubo de informação ou ao bloqueio de
computadores, estes incidentes podem provocar consequências físicas imediatas,
como a deterioração de produtos alimentares.
A exposição também ultrapassa o setor da distribuição
alimentar. Sistemas semelhantes são utilizados
em unidades de processamento de alimentos, adegas, explorações agrícolas,
laboratórios, farmácias e hospitais.
“É o mesmo tipo de equipamento que guarda vacinas nas
farmácias, amostras nos laboratórios e sangue nos hospitais. Os supermercados
foram só onde se viu”, alertou Sérgio Silva.
O que pode ser feito para evitar novos ataques?
A principal recomendação da Forescout é retirar os
sistemas de gestão de refrigeração do acesso direto à internet pública,
permitindo que as empresas de manutenção utilizem apenas mecanismos seguros de
acesso remoto.
A empresa aconselha também a
substituição dos equipamentos que deixaram de receber atualizações de segurança,
uma vez que a utilização de software desatualizado pode facilitar a exploração
de vulnerabilidades conhecidas.
Outra medida passa pela eliminação de palavras-passe
partilhadas entre técnicos e empresas de manutenção, substituindo-as por contas
individuais protegidas com autenticação multifator. A manutenção de registos
das alterações efetuadas aos sistemas permite igualmente identificar
intervenções suspeitas.
Em Portugal, a Associação Portuguesa de Empresas de
Distribuição (APED) tinha assegurado à Executive Digest, em outubro, que
não existiam registos de perturbações nas operações dos seus associados
semelhantes às verificadas em França.
A associação reconheceu, contudo, que os ataques demonstram
a importância de reforçar a cibersegurança e a resiliência operacional das
empresas, incluindo os sistemas próprios e os equipamentos utilizados por
parceiros e fornecedores externos.
Perante os novos incidentes registados na Europa, a Polícia
Judiciária está agora a procurar esclarecer se Portugal também foi afetado. A
investigação ainda não permitiu confirmar a existência de um ataque em
território nacional.
Os dados conhecidos mostram, porém, que os riscos associados
aos sistemas de refrigeração ligados à internet vão além dos supermercados. Uma
tecnologia concebida para facilitar a manutenção, reduzir custos e melhorar o
controlo das temperaturas pode também tornar-se uma porta de entrada para
ataques informáticos quando os equipamentos permanecem expostos ou sem proteção
adequada.
Fonte: Executive Digest, 2 de novembro de 2026
Comissão Europeia diz que a ocorrência repetida de
ciberataques contra sistemas de refrigeração é profundamente preocupante
A Comissão Europeia classificou esta segunda-feira como
“profundamente preocupantes” os ataques informáticos a sistemas de refrigeração
em supermercados de vários países da União Europeia (UE), como Bélgica ou
França, defendendo o reforço da resiliência da
cadeia de abastecimento alimentar.
“Levo muito a sério as notícias relativas a incidentes
informáticos que afetam empresas do setor do retalho em vários países europeus.
A ocorrência repetida destes ciberataques é profundamente preocupante”, reagiu
o comissário europeu da Agricultura e Alimentação, Christophe Hansen.
Numa nota escrita enviada à agência Lusa, o responsável
europeu pela tutela considerou estar em causa uma “tentativa deliberada de
perturbar a cadeia de abastecimento alimentar [da UE] e de comprometer a
confiança dos consumidores na mesma”.
“Um sinal de alerta que devemos levar
muito a sério”, salientou.
Frisando que a segurança alimentar da UE “não está
atualmente em risco”, Christophe Hansen admitiu que “o desperdício alimentar e
o impacto nas empresas são reais”.
“A segurança alimentar não consiste apenas em produzir
alimentos em quantidade suficiente. Trata-se também de garantir que a nossa
cadeia de abastecimento alimentar permanece resiliente perante ameaças novas e
em constante evolução”, elencou.
Por essa razão, “continuarei a acompanhar de perto a
evolução dos acontecimentos e a procurar obter uma visão global dos planos de
preparação de que os retalhistas dispõem para responder a este tipo de
incidentes” e “abordarei igualmente esta questão com os meus colegas
comissários na nossa próxima reunião”, assegurou Christophe Hansen.
Nesta declaração enviada à Lusa, o comissário europeu da
tutela frisou que “o reforço da resiliência exige uma abordagem coordenada ao
longo de toda a cadeia de abastecimento alimentar, desde os grossistas e
operadores logísticos até aos retalhistas”.
“Temos de garantir que todos os elos desta cadeia estão
preparados para resistir às ciberameaças e responder às mesmas”, adiantou.
Também numa resposta escrita enviada à Lusa, a porta-voz do
executivo comunitário para a área da Agricultura, Louise Bogey, indicou que a
instituição tem conhecimento destes incidentes, que “demonstram que os
ciberataques podem perturbar a prestação de serviços, afetar as empresas e ter
um impacto direto na vida quotidiana dos cidadãos”.
De acordo com a responsável, a
UE “dispõe de vários instrumentos para responder a este tipo de incidentes”,
desde logo através da Rede Europeia de Organizações de Ligação para as Crises
Cibernéticas, que permite coordenar a gestão de incidentes e crises de
cibersegurança em grande escala, facilitando a troca de informações entre os
Estados-membros e as instituições europeias.
Entre outros instrumentos na UE estão o Regulamento
Ciber-Resiliência, que reforça a segurança dos produtos digitais, o Regulamento
Cibersolidariedade, que melhora a capacidade de resposta a ciberataques, e a
Diretiva NIS2, que estabelece regras de prevenção e gestão de riscos
informáticos para setores essenciais e importantes.
Dezenas de supermercados na Bélgica sofreram um ataque informático entre a noite de domingo e segunda-feira, permitindo aos piratas manipularem remotamente os seus sistemas de refrigeração, noticiou a imprensa internacional.
O método utilizado é semelhante ao ataque informático
registado em França no passado mês de outubro, que também afetou vários
supermercados, e num outro detetado esta segunda-feira em estabelecimentos na
Suécia.
Supermercados na Estónia, Finlândia, Luxemburgo, Irlanda e
Países Baixos também foram afetados por este novo ataque de piratas
informáticos.
Fonte: CNN Portugal, 3 de novembro de 2026



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